Monday, July 31, 2006

Uma vez, Flamengo

Brilhou a estrela da Gávea e o Brasil tem seu novo campeão de Copa.
Há os que discordam da real qualidade dos times vencedores da Copa do Brasil, dado que seria uma competição "menor", permitindo um caminho teoricamente mais fácil para se chegar à disputa da Copa Libertadores, ou que seria esvaziada devido à ausência de times já envolvidos em outros torneios. Permitam-me contrariar esta tese.
Primeiro, nós, tão fanaticamente envolvidos com a chamada competição de "tiro curto", uma vez que a Copa do mundo é nosso fascínio maior, brasileiro, precisamos compreender que o campeão desse tipo de certame é o que não falha - ou melhor, que acerta nos momentos capitais. A bota italiana nos premite aceitar isso melhor, por exemplo. A Copa do Brasil não é menor; pelo contrário, seu sistema não permite erro. O campeão merece os louvores sim, mesmo que seu team não corresponda às melhores expectativas.
O chamado sistema de "mata-mata" permite jogos fáceis? Se os ventos do emparelhamento forem bons, talvez. Contudo, exige-se respeito: não foi à toa que Criciúma, Juventude e Paulista, todos excluídos do panteão das grandes equipes nacionais, já conquistaram o ouro.
Além do mais, qualquer final de campeonato que seja disputada entre dois times de grande história é sinal de disputa difícil, árdua a princípio. Em se tratando de dois rivais seculares como Flamengo e Vasco, pior ainda.
O Flamengo pode não ter o time que toda a massa rubro-negra deseja, certamente. Porém, conquistou o título de forma inconteste: ultrapassou as etapas como manda o figurino da competição e, na fase final, dominou os dois jogos.
Por mais que Renato, o treinador cruzmaltino, tivesse tentado imbuir o Vasco do chamado espírito de luta, os primeiros minutos já denunciaram um time nervosíssimo, perdido, incapaz de trocar três passes e sendo desarmado facilmente pela defesa flamenguista, de forma limpa e sem faltas. A pressão criada pelos dois gols da partida anterior assustou o Vasco.
O penúltimo golpe foi dado com a expulsão justíssima de Valdir O Papel. Suas duas entradas desnecessárias, até grotescas, justificaram os cartões. Com vinte minutos de partida, visivelmente nervoso, jogando mal, precisando tirar uma diferença de dois gols e com um jogador a menos, a tarefa do Vasco faria qualquer um dos doze trabalhos de Hércules parecer piada. Renato irritou-se com o atacante, chegando a empurrá-lo para longe de repórteres e, se não fez a coisa correta (o que bem sabemos), compreende-se: ele, Renato, percebeu que tudo poderia estar perdido a partir de então. E estava certo.
A seguir Ney Franco fez excelente mexida, tirando Toró, que seria um candidato à expulsão, dado que também já havia levado o cartão. Obina entrou e o Flamengo controlou o jogo de vez.
O golpe final veio no terço da partida. O gol de Juan, jogador limitadíssimo mas ocasional bom finalizador, acabou com as esperanças do Vasco, menos pela quase impossibilidade e mais pelo conjunto de revezes criados antes e durante a partida. Dali em diante, a moçada da Gávea administrou a partida sem maiores problemas - as escassas finalizações do Vasco foram sempre distante do gol ou de certos perigos.
A festa é merecida, ainda mais no caso de um club que chegou a várias finais dessa competição em tempos recentes, sem sucesso.
Classificado para a mais importante competição sul-americana, agora cabe ao Flamengo o despertar para o campeonato brasileiro, onde se encontra em posição delicada, e a preparação de um team que faça justiça às cores vermelha e preta perante toda América.
O velho estádio da Gávea tremula em verde e amarelo.
O ponto negativo ocorreu, como em muitas vezes, fora das quatro linhas: meia-dúzia de bobocas malversaram o nome de milhões de rubro-negros em mais uma confusão estapafúrdia entre torcidas que, estanhamente, insistem em ser chamadas de "organizadas".
Todavia, a massa flamenguista, alheia às balbúrdias, merece todos os parabéns pela conquista da louvada Copa.

Friday, July 21, 2006

A eterna homenagem ao Tricolor

Publicado em 21/07/2002, pelo não menos gigante Marcos Caetano


Para ser um gigante

No instante em que escrevo estas palavras, o Fluminense Football Club está completando o seu primeiro centenário. Não são cem anos de regatas, críquete, tênis ou carteado - mas de futebol. O Fluminense é o mais antigo clube de futebol do Rio de Janeiro, um dos mais antigos do Brasil e, indiscutivelmente, o que mais contribuiu para o desenvolvimento do esporte que hoje nos identifica como nação. Ao contrário dos demais grandes clubes cariocas, o Tricolor das Laranjeiras tem o futebol em sua certidão de nascimento e na heráldica de seu escudo.

O Fluminense é daqueles clubes sem os quais as cinco estrelas que a camisa do Brasil exibe hoje talvez nunca tivessem sido bordadas. Não apenas porque cedeu muitos jogadores para a Seleção, mas principalmente porque estabeleceu os paradigmas da administração esportiva no país. Já em 1904, por exemplo, o clube fundado por Oscar Cox inspirou e apoiou a formação das equipes de futebol de Botafogo, Bangu e América, clubes com os quais disputou o primeiro campeonato carioca em 1906. Disputou e venceu.

"O Fluminense nasceu com a vocação da eternidade. Tudo pode passar, mas o Tricolor não passará jamais". O autor desta frase também é eterno. Chama-se Nelson Rodrigues - o maior cronista e dramaturgo brasileiro de todos os tempos. Na avaliação de Nelsinho, seu primogênito, o bardo da Aldeia Campista é o maior troféu da história do Fluminense - e o único que jamais será erguido por outros clubes. É um orgulho saber que o maior tricolor da história não freqüentou gramados nem gabinetes acarpetados, mas construiu sua mística do lado de cá da máquina de escrever. Mas não quero centrar minha escolha da grande glória do clube num indivíduo.

Em meu coração há um recanto especial para um jogo contra o Náutico, pela terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Num Maracanã com arquibancadas interditadas para obras, uma inacreditável multidão de torcedores lotou a geral, quarta-feira à noite, para, sob chuva torrencial, empurrar o time durante a quadra mais difícil de sua existência. Naquele dia eu tive a mais absoluta certeza que o Tricolor jamais desapareceria, nem com três rebaixamentos seguidos, nem com mil anos de crises e gestões desastrosas. Ali eu entendi que não há abismo suficientemente grande para tragar um clube como o Fluminense.

Mas se eu tivesse que escolher apenas um momento para simbolizar a grandeza do clube da rua Álvaro Chaves, eu voltaria no tempo, até 7 de julho de 1912, data em que foi disputado o primeiro Fla x Flu. Com um time formado pelos tricolores campeões invictos de 1911, que deixaram o clube após uma desavença, o Flamengo era a nova sensação do futebol carioca. Do outro lado, o Fluminense encarava a maior ameaça de sua história. Se perdesse - o que seria natural - o futebol no clube correria grande risco de encerrar as atividades. Mas a heróica e renovada equipe tricolor venceu o Fla x Flu - que permanecerá para sempre como o mais importante da história - e salvou o time do desaparecimento.

Para ser um gigante, não fazem falta títulos mirabolantes, equipes inesquecíveis ou milhões de fanáticos torcedores. O Fluminense tem tudo isso, como de resto quase todos os grandes clubes mundo afora. Não é isso que torna o Tricolor diferente dos demais. Para ser um gigante é preciso mostrar valor diante do inimigo invencível e face ao mais profundo dos abismos. Por duas vezes, ao longo de seu primeiro centenário, o Fluminense esteve à beira da aniquilação - e sobreviveu. Foi com tal fidalguia que o clube das três cores que traduzem tradição se tornou uma lenda. Um clube que, quando menor pareceu, aí mesmo foi que provou ser um gigante.

Vice de novo!?

Amigos, existem derrotas fragorosas, eternas, tristes e silenciosas como a bola de Ghiggia batendo no fundo da rede de Barbosa.

Existem, porém, aquelas efêmeras, enganadoras, aquelas que provocam o torpor da auto-suficiência, a certeza de que se chegou ao Olimpo antes do tempo. Quantas vezes já vimos os rojões das comemorações antecipadas virarem os traques da derrota? E da derrota mais amarga, porque inesperada.

Era 1983. Meus 12 anos de idade. Um Fla-Flu na casa de uma tia horrorosamente flamenguista. Rádio de pilha. Tensão. Zero a zero. Chegaram os 44 do segundo tempo. “Vem, Zé, vem ver meu Mengo ser campeão!”. Ela não poderia imaginar o que vinha ali. Tradição. A TV liberava a transmissão aberta dos últimos minutinhos do jogo. Invariavelmente, havia umas listras horizontais que corriam pela tela da TV. Nunca entendi o porquê. Chego resignado à frente da TV. Um tricolor desmunhecado bate uma falta para afrente, por cima, ponta direita, terreno que conheceríamos tempos depois como “Avenida Júnior”. A bola aterrissa nos pés do Assis. Ele entra, entra, ninguém chega... Aí, na cara de um Raul estupefato, dá um peteleco, do lado de seu pé direito. Gol.

Confesso que fiquei uns dois segundos pasmo olhando para a tela. Sonho? Parecia sonho. Não era! GOL! Porra! Gol!!

A história está repleta de campeões antecipados, campeões de véspera, campeões morais – termo ridículo, aliás, cunhado por certo técnico flamenguista - cujo sonho se transformou em pesadelo em 90 minutos. Às vezes em 45. Às vezes em cinco. Três. Um minutinho.

A gasolina do Nigel Mansell acabou. O Assis fez o gol no final. O Brasil empatou, mas o Paulo Rossi fez outro. E faria outro ainda se empatássemos de novo. O Flamengo comemorava o título de campeão carioca de 81 numa noite chuvosa quando o Dinamite marcou, obrigando a aparição do ladrilheiro para resolver um problema que o super time não conseguia resolver sozinho. Ganhar do Vasco do Ticão...

Flamenguistas, parabéns pelo seu título antecipado, conquistado ontem. Foi muito merecido. Não entendi, aliás, por que não entregaram a taça. Por que não houve volta olímpica. Uma vitória tão fragorosa, por tal diferença irrecuperável de gols. Com uma exibição primorosa de todos os setores de seu time, esmagando e humilhando o adversário que, com certeza, já desistiu de tentar. Vocês são melhores! Os dignos campeões que cumprirão a feliz tarefa de apenas humilhar ainda mais os adversários no jogo de entrega das faixas, semana que vem, no Maracanã. Aliás, faixas costumam ser entregues antes das partidas. Portanto, coloquem a faixa de pano no peito. Porque a outra, a do título, vocês já ganharam. Como colocaram a da mesma Copa do Brasil de 2004, cuja final pró-forma vocês haviam ganho por antecipação do Santo André.

Vascaínos, acreditem. Nossos adversários já ganharam o título. Já estamos derrotados. Muito mais derrotados do que no intervalo daquele jogo no Parque Antártica, em 2000. Não há esperança. Conseguimos fazer quatro gols em 45 minutos, na casa do adversário, na final do campeonato, com um homem a menos. Mas essa, essa a gente perdeu. É impossível. Estaremos diante de um esquadrão poderoso, imbatível, dono de um futebol soberbo (isso é verdade!) e cuja vitória já está escrita na nossa sina de perder. Não teremos chance. Pensem bem: como poderá nosso timinho de 11 homens vencer os 11 super-homens de lá, vestindo o manto, empurrados pela nação e ainda fazer dois gols em 90 minutos? Somos uns sonhadores. Acho que devemos desistir. Inscrever na rampa da Uerj “Vós que aqui entrais, perdei toda a esperança”. Pois essa já foi perdida. Somos perdedores.

Derrotados.

Fregueses.

Mas, e se o inesperado acontecer? E se a lógica matemática futebolística furar? E se o campeão vacilar? E se Nossa Senhora das Vitórias nos conceder um de seus milagres?

Não... Impossível.

Parabéns ao campeão Flamengo.

Valei-nos Santo André.
Zeca Tal - 20/07/2006

Thursday, July 20, 2006

A contra-virada

Amigos, é natural que nós, Tricolores com a letra inicial maiúscula justificadamente, tenhamos irritação pelo que aconteceu no jogo de hoje, contra o Grêmio.

Tivemos a vitória na mão e a perdemos por desatenção; dois gols no apagar das luzes, ambos provenientes de perdas de bola no meio de campo, ambos com os finalizadores gremistas à vontade. Fizemos quatro gols no Olímpico Monumental, façanha raríssima para qualquer time brasileiro. Tomamos outros, paciência.

A fidalguia Tricolor, tão praticada pela história e hoje em dia tão bem ressaltada pelo texto de Marcos Caetano, deve entrar em campo e contar a verdadeira história da partida.

Primeiramente, não foi um jogo espetacular como querem fazer crer alguns dos que ocupam espaços da mídia esportiva. Foi sim, um jogo corrido, disputado. Beleza artística não, apenas em certos momentos. Os seis gols no terço final do match ajudam a maquiar tudo. Sim, o gol é a redenção, a independência sem morte; ao gol, tudo é permitido, tudo fica menor diante. Houve grandes gols sim, mas falaremos disso mais à frente.

Volto ao jogo, que não foi divino, do Olimpo. Uma partida até divertida de se acompanhar pela movimentação. Os gremistas tiveram o primeiro tampo na mão; dentro da escala pouco acima da mediocridade, estiveram muito melhor do que nós. Eu não me reconhecia; o Fluminense não se reconhecia lá: era um amontoado, sem atacar, sem organizar, apenas recebendo a esquadrilha sulista de três cores tal como um boxeador em derrota, mas não por nocaute – perdendo pontos, tomando mais e mais jabs.

Quando menos se esperava, imediatamente após termos sofrido o segundo gol gremista, num contra-ataque arrebatador e que poderia ter sacramentado a derrota, eis que tivemos um resquício de reação. Na falha do goleiro gaúcho e o posterior rebote, no meio da confusão, a bola pererecou e entrou. E então, vejam vocês, o futebol é cheio de surpresas e nuances, detalhes e especificações, como se fosse uma mulher charmosa e misteriosa: tudo mudou, significativamente.

Petkovic, nosso craque, que não tem mostrado o melhor de seu talento este ano, tinha falhado clamorosamente no passe que resultou no segundo gol gremista. De repente, fez de tudo: passou, driblou e conseguiu o que almejava há tempos com a camisa sagrada das Laranjeiras – o gol olímpico. Há os que dizem ter havido carga sobre o goleiro, outros defenderam a falha entusiasticamente. Tudo, como já disse, fica muito pequeno diante da grandeza, da magnitude de um gol olímpico – assim, Petkovic foi aos céus. Recuperou-se? No mínimo, deu sinais de que tem lenha para queimar. Um gol definitivo.

Diante da reação inesperada e fantasticamente consagrada no segundo gol, o que poderíamos esperar? Uma virada tsunânica, avassaladora, típica dos cem anos Tricolores, daquelas com as quais estamos mais do que acostumados, é nossa sina. E veio, fulminante, com um peixinho do garoto Marcelo, lateral-esquerdo que passou a flanar no meio-campo durante o decorrer da partida, em conseqüência das substituições. O lateral, jogando no meio, fazendo um gol de cabeça como se fosse um artilheiro maior, um gênio da grande área.

O terço final do jogo reservou as melhores emoções, que os outros dois nem puderam rascunhar. Depois de dois golaços, veio mais um, esfuziante, do mesmo Petkovic, num chute poderoso de duzentas jardas, fazendo com que o goleiro esticasse-se todo em busca do nada, da bola já devidamente endereçada.

Em menos de meia hora, o time outrora esgarçado e esbaforido tinha feições de uma invencível armada. Numa virada fabulosa, restou aos torcedores do Grêmio - senhor do jogo na primeira etapa sem, no entanto, traduzir a superioridade técnica em resultado – a saída das arquibancadas, desistindo do dia, com sofreguidão.

Outra vez, quando menos se esperava, fomos desatentos, não detalhistas, afobados. E entregamos uma vitória que, por boa parte do jogo, não nos caberia. Contudo, já que a mesma se desenhou em nossos marejados olhos, porque não aproveitá-la, saboreá-la? Poderíamos. Deveríamos. Não fizemos, pois.

O jogo não foi tudo o que falaram, creio. Valeu mais pelo finzinho e pela intensidade de emoções.

Porém, a menor parte do tempo da partida nos serve de bom presságio.

Não tivemos nada de fenomenal em nossa atuação pelo conjunto da obra. Todavia, o pequeno solo liderado por Petkovic, em dia de inferno e céu, trouxe-nos ventos de esperança. O campeonato ainda está longe, muito longe. Há muito que fazer e construir.

O pequeno terço de jogo, contudo, nos serviu da prova de que somos capazes, de que podemos galgar posições e que, se soubermos trabalhar na construção, tijolo após tijolo, todos delicadamente cimentados, não será a maior das surpresas caso tenhamos ao final do ano uma bela casa, com uma bela sala, capaz de abrigar o desejado troféu.


Paulo Roberto Andel – 17/07/06

Tuesday, July 18, 2006

No tempo dos pontas

Sempre se discute qual seria o resultado de um hipotético jogo entre a seleção de 70 ou a de 82 e a de 2002, por exemplo. Invariavelmente, chega-se à conclusão de que, por causa do preparo físico e da marcação ferrenha, o time de antanho perderia feio. Esta suposta unanimidade pode lever a um erro crasso.

Vendo a recém-terminada Copa do Mundo pobre em novidades, e já pensando na final do século que se iniciará amanhã, viajei para 1987 e lembrei do meu Vasco favorito, que não durou muito. Basicamente, um campeonato carioca de sonho. Acácio, Paulo Roberto, Donato, Fernando e Mazinho (coitado do Roberto Carlos se fossem contemporâneos...); Dunga, Geovani e Tita; Mauricinho, Roberto e Romário. Com Luis Carlos Martins de banco.

Lembrei desse time porque acredito firmemente que nenhuma dessas seleções da Copa conseguiria suportar um 4-3-3 bem montado, com homens abertos nas duas pontas, aprontando correria para a linha de fundo. Do lado direito, Mauricinho tinha o apoio de Paulo Roberto. Do esquerdo, quem fazia às vezes de ponta era o lateral Mazinho, homem de fôlego invejável, que ia e voltava o jogo inteiro e que, por ter origem no meio campo – Antônio Lopes o deslocou pra lateral, alçando-o de meio campo esforçado a lateral de seleção – sabia como cair pelo meio e bater em gol. E no meio... ah, tínhamos Romário em início de carreira, o homem que com três passos deixava o seu marcador um metro – sem exagero – pra trás. E o gênio Dinamite armando tudo isso.

Pensemos nessa França que triturou nosso super-time e depois desfaleceu na batalha dos pênaltis. Ela não estava absolutamente preparada para encarar ataques profundos em ambas laterais e cobrir homens de frente como Romário e Roberto. Sagnol e Abidal – perdão da palavra, um lateral de merrrda! – ficariam presos à marcação para tentarem segurar as duas pontas. A simples presença desses quatro homens – Mauricinho enfiado na direita, Roberto jogando de ponta de lança da intermediária adversária à entrada de sua área, Romário enfiado entre os beques interiores e as subidas velozes e objetivas de Mazinho, sobrecarregariam os dois homens de proteção – Vieira e Makelele, que teriam de se multiplicar pra cobrir os dois lados do campo, desguarnecendo as subidas de Geovani e Tita. Qual a solução? Tirar Ribery e botar mais um marcador? Prender Zidane na marcação dos homens de meio campo?

Não creio que nenhum time da Copa que passou estivesse apto a encarar tal estilo de jogo apoiado em tal qualidade de jogadores. O meu Vasco seria campeão do mundo!

Parafraseando Gentil Cardoso, lanço então meu ponto: dêem-me dois bons pontas, os de nem tão antigamente assim, e ganho qualquer campeonato!

Zeca Tal – 17/07/06
zecatal@tribo12.com.br

Fé na vida, fé no jogo

Persistência, amigos, persistência.

A vida é um jogo. Ela só acaba quando termina.

Quarenta e cinco minutos do segundo tempo, mais acréscimos. Fé.

O Maracanã da minha adolescência quase sempre tinha dois grandes amigos vascaínos comigo. Minutos finais de derrotas significavam invariavelmente solidão. Fugiam. Não queriam ver o fim. Abandonavam a vida, a realidade às vezes dura dos fatos em busca de uma fuga inútil. Bons amigos, mas avestruzes da bola.

Acho que o Maracanã tem esse quê de divã. Invariavelmente, aqueles que persistem num jogo, que acreditam até o final, persistem também no seu dia-a-dia. Não vão abandonar a luta antes de ter seu fim decretado. Não vão deixar de acreditar no seu time, ou quando muito, estarão ali para exercerem os seus papéis de críticos e consumidores enganados e xingarem, urrarem a plenos pulmões contra os pernas-de-pau que ousam vestir a camisa de seu clube. Não vão abandonar o problema e fugir dele, mas sim tentar resolver.

Vencer.

Felizmente nunca passei pela tenebrosa experiência de ouvir um gol do meu time, o do empate inacreditável, o da derrota vendida caro, na rampa do Bellini. Os jogos a que fui, assisti-os todos. Testemunhei tudo. Nada pude fazer por eles (não sou ladrilheiro...). Berrei. Xinguei mães. Mas vivi. Cumpri meu papel. Acreditei.

Meus amigos perderam, num Vasco e Bangu, se não me engano em 1984, uma das faltas mais fantásticas que vi Roberto Dinamite bater. Empate, aos 45 do 2º tempo. Inesquecível. Felicidade quase plena. Um pouco de tristeza por estar só, sem os dois. Quase vinte anos depois, encontro um dos dois na arquibancada, ano passado. Ironia: a história se repetiu. Gol no finalzinho e o empate. Ele novamente não viu.

Metáfora... na hora dos problemas, da dureza, da dificuldade, poucos ficarão. Mas esses segurarão a barra com você. E comemorarão as vitórias mais sofridas, suadas, eternas. Outros estarão na rampa. Ou terão apagado a televisão. Ou fecharão os olhos pra não ver o Baggio bater o pênalti...e perder. Aquele segundo passará, esteja você perto de mim, ou não, vendo ou não.

E você será um vencedor.

Ou não.


Zeca Tal – 17/07/06

zecatal@tribo12.com.br

Friday, July 14, 2006

Grand Finale!

Sim, eu imagino, com toda a razão teremos nos próximos dias muitos torcedores vociferando contra Vasco e Flamengo. Ambos, em suas reestréias, foram verdadeiros fiascos no campeonato nacional, goleados que foram por Palmeiras e Paraná, respectivamente.

Para piorar, o clássico dos milhões terá edição no próximo domingo, no início da noite fria. A expectativa de público é, naturalmente, das piores.

Até aí, não há como dar louros ao match. Contudo, três dias depois, o jogo terá nova repetição, e esta é para valer: tratar-se-á da primeira partida da final da Copa do Brasil e que, além do título em jogo, fornecerá uma vaga para a Copa Libertadores de 2007.

E com isso, amigos, tudo muda. Tudo.

O Maracanã não estará lotado até a última gota do garrafão, feito os tempos de Zico e Roberto, mas terá todos os seus lugares ocupados.

É a volta das torcidas, com suas cores e cânticos, em raro show de beleza que só os freqüentadores das arenas futebolísticas podem entender.

Sabemos que o futebol carioca não tem honrado a tradição de conquistas e supremacia nacional. O esvaziamento da cidade repercutiu nos clubes, e tivemos tempos muito difíceis, que ainda vão perdurar com seus rescaldos. Em termos nacionais, tivemos rebaixamentos, muitas ameaças e escassos títulos nos últimos dez anos.

A confusão administrativa dos clubes levou as equipes à penúria, salvo momentos pontuais.

Porém, tudo vai ficar de lado entre as duas próximas quartas-feiras. É decisão. É título em jogo, título nacional disputado por duas agremiações cariocas.

Em campo, não há mais os craques do Flamengo dos anos oitenta, e nem os do Vasco dos anos noventa. Mas a mística do clássico é inabalável e há de perdurar por duzentas mil primaveras.

Nelson Rodrigues, o maior tricolor de todos os tempos, certa vez escreveu que haveria um dia em que a camisa do Flamengo poderia jogar sozinha, sem um time. Creio que isso também valha para o Vasco.

Não importam os dirigentes nefastos, nem os maus resultados recentes, mesmo as campanhas não convincentes dos últimos anos. Deixemos de lado a má fase.
É hora de festa, de alegria, de estádio colorido e de dois jogos que, se não forem capazes de exibir no campo o brilho de outrora, certamente escreverão mais um capítulo da história que é feita para não ter fim, a história de mais uma decisão importante envolvendo duas biografias centenárias; duas camisas inesquecíveis; duas paixões populares que imaginam-se digladiando permanentemente mas que, na verdade, são pura simbiose.

A Colina encara a Gávea. Vejamos o que virá.

Paulo Roberto Andel - 14/07/06

Wednesday, July 12, 2006

Rescaldos

Agora, esfriados os ânimos e já com a volta do campeonato brasileiro devidamente encaminhada, talvez ainda caibam pequenas observações sobre o assunto que tomou o Brasil como uma verdadeira obsessão, a de sempre: Copa do Mundo.
Sempre deixo claro que minha empolgação é o Maracanã, é São Januário, é Bariri. Aqui, em nossa vizinhança, é que são germinadas diariamente as sementes da paixão que chamamos de futebol.
Nos últimos dias, como sempre acontece toda vez que nossa impecável condição de melhores do mundo tem risco de ser arranhada, muitos vociferaram pelos quatro cantos. O fim de Ronaldo. A lenda de Ronaldinho. A falta de raça. Garra. Fibra.
Se passássemos pelos franceses, teríamos honrado as chuteiras da pátria, vingado o trágico fim de 1998, "trágico" para nós e merecidíssimo para eles.
Uma tremenda bobagem.
A espetacular seleção de 1982 - que, a meu ver, desde que nasci, foi a maior favorita de todas, junto com esta de 2006 - tinha um talento extraordinário, uma disposição impecável e ficou pelo mesmo meio de caminho. Nosso time era quase impecável, mesmo tendo soluçado contra União Soviética e Escócia na mesma competição. A Itália era desdenhada por nossa imprensa...um time com titulares do quilate de Zoff, Scirea, Cabrini, Tardelli, Conti, Altobelli e, sim, Paolo Rossi. Jogamos mal; se mal não foi, ao menos pior do que eles, os ítalos. Foram superiores e venceram. Nós, brasileiros, não soubemos e nem sabemos admitir a inferioridade pontual no futebol - pontual sim, pois no longo prazo somos imbatíveis no conjunto da obra. Chegaram a cogitar que o Júnior, craque da pelota, havia falhado em não ter jogado seu próprio corpo para dentro do gol na hora em que Rossi finalizou o terceiro gol, afim de causar impedimento. Quem puder, reveja o tape do gol e constante o absurdo que propuseram como causa da nossa, digamos, saída antecipada.
Não tínhamos a seleção dos sonhos em 1986, mas a partida que selou nossa eliminação foi de nosso amplo domínio. Os franceses arrastavam-se na prorrogação, frente o sol equatorial do México. Pênaltis, babau! Jogamos melhor e demos adeus.
Na Copa da Itália, conseguimos jogar três partidas horríveis, recorde na história da Nazionale brasileira, creio. Veio a única em que jogamos bem, três bolas na trave, o diabo, um toque de craque Maradona nos despejou.
A decisão de 1998, por mais que problemas extra-campo tenham influenciado, revela um fato constrangedor: jogamos pessimamente. E três gols foram pouco.
Pelo meio do caminho, ora ganhamos o mundo, ora perdemos. É do jogo, é do futebol, o esporte mais apaixonante da Terra justamente porque nem sempre o melhor vence. Há uma parcela do imponderável, como se o velho Sobrenatural de Almeida, de Nelson, a cada quatro anos buscasse novos ares.
O mesmo Parreira, hoje fuzilado, foi o sóbrio campeão de 1994. Errou? Sim, todos erramos. Contudo, na partida contra o time de Zidane, fez o que todos queriam - todo o povo, toda a imprensa, até mesmo boa parte dos jogadores. Ronaldinho na frente, Juninho na armação. Era o que esperávamos dar certo, mas não deu: foi um desastre. Uma equipe com tantos jogadores de categoria sem conseguir trocar três passes com precisão.
Há momentos em que me pergunto: por que não somos capazes de admitir que falhamos no futebol?
Nosso mérito eterno não se arranha por isso. Os maiores vencedores souberam, um dia, tirar proveitosas lições dos revezes.
Os ítalos, vitoriosos, merecem os louros. E nós, aos poucos, reconstruiremos o caminho para nova volta ao pódio em 2010, que é nosso lugar e onde todos no mundo esperam nos ver.
Enquanto isso, voltemos ao nosso Maracanã, ao nosso futebol que foi construído com alicerces dignos, capazes de nos firmar em todo e qualquer pantheon do esporte bretão.
Mal posso esperar pelo jornal da madrugada, e conferir os gols da rodada.
Paulo Roberto Andel - 12/07/06

Tuesday, July 04, 2006

Rodada dupla!

Semifinais da Taça Rio – 2006, Maracanã, lá estava eu no meio da torcida do América, que fazia a primeira partida contra o Americano de Campos.

Segunda partida iniciada, Madureira x Cabofriense, de repente me lembro das rodadas duplas do meio de semana, envolvendo dois grandes contra dois pequenos do Campeonato Carioca, ou ainda dos domingos de clássicos com a preliminar de juvenis.

Lembro inclusive da presença maciça da torcida nas preliminares, para ver os futuros craques, visto que naquela época, tínhamos a certeza de que estes estariam, certamente, entre os profissionais de seus respectivos clubes e não exportados ou cedidos aos rivais através de transações estranhas entre empresários e cartolas, mas isso é outro papo.

Nas rodadas de meio de semana, geralmente envolvendo dois grandes e dois pequenos, podia-se presenciar as duas torcidas dos grandes colocadas como nos clássicos e torcendo pelo pequeno que jogava contra o arqui-rival. Era um secando o outro e isso até empolgava os pequenos.

Nos anos 70, estudava na Escola Técnica Federal, hoje CEFET-RJ e às vezes, junto com um grupo de amigos de classe, matava aquelas aulas necessárias para ir ao Maraca, de Geral, torcer e secar. Era divertido, o prazer podia ser duplamente sentido, uma festa de torcidas, bastante engrossada pela neutra, a dos outros grandes que iam torcer contra os dois protagonistas da noite.

Trocar de posição após o intervalo para ver melhor os gols, correr pelo túnel da Geral, outras travessuras dignas dos dezesseis, dezessete anos de idade.

Certa vez, eu, tricolor, e um amigo, botafoguense, fomos assistir a um jogo entre Vasco e Bahia pelo Brasileiro, de Geral é claro, só pra secar o Vasco e quando o Bahia marcou aos 45 do segundo, o gol que lhe daria a vitória sobre o clube da colina por 1 x 0, não nos contivemos e pulamos sozinhos e imediatamente corremos de alguns torcedores do Vasco pelo túnel adentro até a saída do estádio. Até hoje não sei quantos eram, pois não tive tempo de olhar pra trás. Bem, a Geral mereceria um capítulo exclusivo.

Voltando às rodadas duplas, me pergunto hoje: porque não se tentar novamente? Porque não a volta das preliminares de juniores? Não seria bom até mesmo para o torcedor conhecer melhor alguns de seus futuros ídolos? Hoje, mal sabemos quem são os campeões das várias categorias de base.

Também conheceríamos melhor os times dos clubes chamados pequenos e ver suas pequenas, mas animadas torcidas, pois elas existem e se renovam, como a do Madureira, que vimos na última Taça Rio, além é claro, de a cada rodada, termos o encontro das torcidas dos chamados grandes e rivais
.
Quem sabe, por se verem mais, não se tornassem menos violentas entre si, como nesses tempos de Geral e de rodadas duplas? Quem sabe?


Jocemar de S. Barros. RJ, 28/06/2006

Fenomenal!

A Copa do Mundo começa e as atenções de todo o planeta se voltam para as trinta e duas seleções relacionadas e para seus jogadores, em especial os chamados craques.

No scratch canarinho, o quase sempre favorito de todos os que acompanham o futebol pelo mundo afora e de todas as bolsas de apostas dos grandes centros, destacam-se vários jogadores dignos de serem apontados como craques e há quatro Copas do Mundo, incluindo esta, destaca-se um em especial, sempre muito discutido e protagonista de eternas discussões e análises muitas das vezes injustas e precipitadas.

Cercado sempre de grande expectativa em torno de suas prováveis atuações no Mundial e envolto algumas vezes em controvérsias, normalmente originadas fora dos gramados, Ronaldo Fenômeno, ex-Ronaldinho, é prato cheio para a imprensa e mídia em geral.

Problemas extra-campo à parte, o que se cobrar ou reclamar do cara? Senão, atentemos para breve histórico de sua meteórica, vitoriosa e surpreendente carreira.

Aos dezesseis anos de idade, recém levado ao Cruzeiro de Belo Horizonte, vindo do modesto São Cristóvão do Rio de Janeiro, o garoto de Bento Ribeiro, subúrbio da Central, no Rio de Janeiro, começa a aparecer nos gols do Fantástico, iniciando a coleção de pinturas de sua artística carreira de goleador nato.

Num desses domingos de gols do Campeonato Brasileiro, um em especial chama a atenção do país inteiro, quando o garoto, se fingindo de morto, como quem bate uma carteira, rouba a bola do experiente goleiro Rodolfo Rodriguez, que a soltara na pequena área após uma defesa e antes de recolocá-la em jogo, teve tempo apenas de ouvir a torcida da Raposa Mineira comemorando o gol. O garoto corria para a galera com aquele sorrido de moleque, aquela cara de garoto quando comemora uma travessura. Não era a comemoração simples de um gol, como vemos normalmente. Jamais esqueci dessa cena.

Pouco tempo depois, o menino estava na Holanda, no PSV e lá continuou marcando seus golzinhos. Depois Espanha, no Barcelona, Itália, na Internazionale de Milão e de novo na Espanha, no Real Madrid. Carreira vitoriosa, sem dúvida! Ídolo por onde passou, Ronaldo continua fazendo escola entre os meninos de todo o mundo. Todos sonham em ser um Ronaldinho.

Sua história, envergando a não menos vitoriosa camisa da seleção brasileira, é indiscutivelmente fantástica e apresenta números surpreendentes. Aos dezessete anos, em 1994, é convocado para sua primeira Copa do Mundo, onde assiste aos jogos no banco de reservas, ainda deslumbrado talvez, por participar do mesmo grupo de seus prováveis ídolos como Romário e Bebeto. Não joga, é verdade, mas quem sabe não tenha sido levado como uma espécie de amuleto, por indicação do próprio Zagalo, o então Coordenador Técnico da Seleção, para quem sabe, repetir o feito de um outro gênio, o maior de todos, Pelé, que em 58 também tinha a mesma idade. Quem sabe?

Como todos sabem, Zagalo é muito supersticioso e não perderia essa chance. Poderia também Ronaldinho, numa necessidade circunstancial durante a Copa, entrar e bater outra carteira de algum goleiro desatento. Na verdade, sua convocação foi um prêmio por suas atuações e gols espetaculares já marcados.

No final, Brasil tetracampeão, título esperado por vinte e quatro anos de angústia e seguidas decepções. O amuleto começava a funcionar!

Em 1998, Ronaldinho, com 21 anos de idade e já eleito duas vezes melhor jogador do mundo pela imprensa européia especializada, é a maior estrela da Copa na França. Agora, carregando toda a pressão e o desejo de todos os brasileiros pela conquista do Penta, tem grande desempenho, sendo o artilheiro do Brasil, que chega novamente à final contra os donos da casa, dia em que não se sente bem antes do jogo e tem sua escalação ameaçada. Mesmo assim, entra em campo, mas como todo o time, não está no melhor dos seus dias e a França é Campeã. Tudo muito estranho para todos até hoje.

Antes da Copa da Coréia e Japão, 2002, o craque sofre contusões que primeiramente leva-o à cirurgia do joelho, afastando-o dos gramados por longo tempo e na volta, nova contusão no mesmo local, numa cena vista e comentada por todo o mundo, por suas imagens chocantes e a grande dúvida que deixava no ar. Voltará a jogar futebol? E se voltar, ainda será o mesmo? O mundo se perguntava sobre o futuro do maior jogador em atividade então.

Após muita determinação, Ronaldinho é preparado para a Copa e sob suspeita de quase todos, inicia sua retomada e com ele no comando, com sua força e com seus gols, conquistamos o tão sonhado Penta. Ronaldo encanta o mundo com seu talento, força e irreverência (lança o corte de cabelo Cascão, imitado imediatamente por garotos de toda parte), é o maior jogador da Copa e artilheiro da competição, além de marcar os dois gols na final contra os alemães.

Agora em 2006, Copa na Alemanha, a terceira da história neste país, Ronaldo, 29 anos, que já não necessitaria provar mais nada pra ninguém, considerando-se seu histórico de conquistas, tem outra contusão de menor gravidade um pouco antes da convocação final para sua quarta Copa, engorda uns quilinhos, que somados a outros episódios envolvendo sua vida pessoal durante o período entre - copas, lhe custa uma perseguição implacável de todos, transformando-o em alvo de piadas e novamente do questionamento sobre seu provável desempenho.

Enfim, começa a Copa do Mundo e aos poucos, driblando alguns adversários e toda a pressão em cima de seus ombros, o gordinho vai afinando, driblando mais adversários e fazendo os gols tão esperados e após o quarto jogo da seleção, com três gols assinalados, já é nosso artilheiro e segundo na competição, além de bater o record até então pertencente ao alemão Müller, de maior artilheiro da história das Copas. Será que algum dia ainda disputará um Campeonato Carioca (de preferência com a camisa do meu clube)? Seria a realização do sonho de qualquer torcedor, não acham?

Parece-me, definitivamente, que ainda é o melhor na posição e que teremos de torcer muito por ele, se pensamos em trazer o Hexa e pra encurtar a conversa, sem mais dados estatísticos, como artilharia em eliminatórias, outras conquistas como Copa América, etc, deixo aqui a pergunta: é fenomenal ou não é?

Jocemar de Souza Barros. RJ, 28/06/2006.

Wednesday, June 21, 2006

O torneio dos campeões

Agora que estamos aqui todos parados, alguns de coração na mão por causa da pátria de chuteiras, veio em mente uma outra época de Copa.

Houve um tempo em que os homens do futebol decidiram não paralisar o calendário daqui por causa do campeonato mundial de seleções. Para ser mais exato, ano de 1982. Eu era um garoto, mal tinha catorze anos e adorei.

A temporada tinha sido fechada com a brilhante conquista do bicampeonato brasileiro do Flamengo, em maio. Era um tempo em que quase a totalidade dos jogadores da seleção brasileira era composta por aqueles que atuavam em times brasileiros, ao contrário de hoje. Então, criaram o Torneio dos Campeões. Não lembro quais foram os critérios de convite para o certame, sim das equipes: as do Rio, São Paulo, Minas, Rio Grande. O objetivo era manter os times em atividade e conseguir alguma renda, já que não havia patrocínio nas camisas e transmissão pela televisão como hoje. Não tinha nem celular, ora: bastava orelhão com fichas.

Como era permitido jogar bola na geral do Maracanã, isso mesmo, levávamos uma dente-de-leite e fazíamos nossa própria preliminar, a turma do colégio da praia, Cícero Penna: eu, Chico, Luiz Cláudio, Cassiano, Bolaman, outros. Era “golzinho”, traves marcadas com embalagens de leitinho CCPL vendido por lá. A volta era de metrô, que ia até Botafogo; então, pegávamos o tal “integração”, que circulava por Copacabana e era chamado de “Mengão”, prateado com duas listras, vermelha e preta. Importante frisar que o ingresso era baratíssimo, quase o equivalente a uma passagem de ônibus da época. Tinha tricolor no jogo do Vasco, botafoguense torcendo pelo América; nem se podia cogitar que houvesse briga entra amigos por que um torcia para o time diferente do outro.

Estabeleci meu recorde de todos os tempos: fui ao estádio de domingo a domingo, sete jogos em sete dias, coisa que nunca mais vai acontecer.

Acharam que o Torneio dos Campeões ia ser um fiasco, abafado que seria pelos jogos da maravilhosa Seleção; como é sabido por todos, a Itália fechou nosso caminho e o então fiasco passou a ser nossa única diversão de jogo de bola.

Meu Tricolor foi mal; teve até enterro de dirigente no estádio, promovido pelo Seu Armando da Young-Flu, sábado à noite, Fluminense e Corinthians. O protesto deu certo: um ano depois, nosso supertime deu as caras e fomos tricampeões à frente.

O grande campeão? América, claro.
Pra você ver como eram as coisas de antigamente.
(Paulo Roberto Andel, 06/21/06)

Thursday, June 08, 2006

A Copa e o Maracanã

Hoje em dia, tudo corre com espantosa velocidade. Daí que os tempos e as gentes sofrem constantes translações. Com o futebol, também é assim.

Mais uma Copa do Mundo se aproxima. O Brasil fica estático, parado, hipnotizado pelas televisões e ondas de rádios. Tudo fica pequeno diante da suposta magnitude do evento, onde os melhores jogadores do mundo podem ou não desfilar seus melhores repertórios. Nelson, vivo fosse, enalteceria a “pátria de chuteiras” incessantemente.

E eu me sinto um completo estrangeiro neste assunto.

O futebol é meu oxigênio. Parreira, o treinador, um dos símbolos do clube que ostento na parte de dentro do peito. A Copa, o espetáculo maior. Evidentemente, gostarei da vitória, do sexto título mundial caso venha. É um momento de folga para um país tão sofrido e tão injusto para com seu povo.

Agora, quarenta dias sem Maracanã? Sem o Tricolor? A estrela, a cruz, o grande aliado?

Minha grande emoção em Copa do Mundo foi em 1986, tristeza não teve fim. Em 1982, o país chorou e eu fui com a petizada jogar bola na Lagoa. O time era tão bom que eu, ingenuamente pensei que ganharia facilmente quatro anos depois. Ledo engano. Nós, garotos, nunca temos a noção exata do nunca mais. Aquela confusão toda, os pênaltis, eu olhei para a tela e só então me veio o pensamento de quatro anos antes. Fui enganado por mim mesmo; achei que teria jeito e não teve, passou em branco para sempre. Foi a única vez que chorei por causa da nazionale. Dali em diante, resolvi que minha vida de bola focou-se para o Tricolor e seus aliados (não adversários, já que fazem parte do match). Esfriei. Encarei com naturalidade a derrota para Caniggia e Maradona; só não gargalhei porque, a meu lado, o velho Xuru rosnava sem fim. Na Copa da França, senti-me incomodado por aquele clima de certeza que os franceses tiveram na final; assisti a tudo com tranqüilidade, não me abalei.

A vitória de 2002 também não me falou ao coração. Achava o treinador um digno de pena que deu certo, foi bom pelo Ronaldo, ótimo rapaz. Não sei dizer o que acontece comigo ao certo: talvez porque os jogadores da seleção estejam longe do combalido futebol carioca; talvez em função de que esse negócio de seleção ficou muito além dos conceitos de popstar.

Em 1994, eu não tinha televisão em casa, e fui um dos únicos brasileiros a não assistir a peleja contra a Azzurra de Roberto Baggio. Pode?

É bom e desejável que a amarelinha borde sua sexta estrela. Torcerei, como milhões.

Agora, que não troco um bom clássico de Maracanã por nenhuma Copa do Mundo, é mais do que fato.

Clube é diferente de seleção. A seleção é uma circunstância, um momento. Bonito? Empolgante? Sim. Momento, de qualquer forma.

Quando, desgraçadamente, a seleção é eliminada, fica um clima de velório no Brazyl por uns dois ou três dias, o treinador é amaldiçoado, algum jogador é crucificado e, com pouca ampulheta, volta-se tudo ao normal. Seleção de novo? Só uns seis meses depois. O clube não, ele está em nossas vidas o tempo todo, todo instante. Você vai ao bar, tem o sujeito do outro time, ou você gritam ou se confraternizam. É quarta e domingo, é sábado de carnaval e até quase o Natal. Traduzindo e abusando do comportamento dos jovens, a seleção é uma “ficada”; clube é amor eterno, de casamento e vida feliz até mesmo nas derrotas.

Mais: quando a seleção vence, quem é que você buzina sacaneando na rua? Não tem o vizinho chato, o porteiro vibrante ou o padeiro quase sempre cruzmaltino. É todo mundo do mesmo lado. Vira unanimidade, celeiro de burrice definido pelo próprio e brilhante Nelson. Além do mais, somos fanáticos por futebol, mas nem um pouco nacionalistas – o espasmo do grito de gol não nos credencia suficientemente para tal comportamento.

Como última bala perdida, meu melhor estádio de futebol é o palco da pior derrota da seleção em todos os tempos.

De toda forma, boa sorte aos canarinhos, que não voem como os do tempo de Júnior.

Agora, para ver o fogo pegar circo, tem que ser futebol em Maracanã, com duas metades de cores e gritos diferentes. É disso que precisamos, é isso que a gente ama. A amarela é só um reflexo tênue desse amor.


Paulo Roberto Andel - 07/06/06







Friday, June 02, 2006

Domingo é dia de Fla-Flu!

Dia de luz, festa do sol! Já dizia a canção, clássico da bossa nova.

Ainda trago na memória, lá dos tempos da bossa nova, as tardes de domingo de sol e Fla-Flu. Lembro de certo alvoroço, de meu pai agitado, ouvindo o jogo pelo rádio da vitrola com meu avô e eu tentando entender e já começando a definir minhas cores de coração e como canta hoje a torcida tricolor no Maracanã: “A minha vida, a minha alma, o meu amor...”.

O Fla-Flu começa na semana anterior, quando termina a última partida. A semana que antecede ao clássico é recheada de comentários, dúvidas sobre escalações, especulações, frios na barriga, prognósticos e provocações. Nada mudou de lá pra cá. É como diz o locutor: “Lobo não come lobo”. A cidade fica mais elétrica do que já é normalmente, mais colorida.

É verdade que já tivemos tempos melhores, jogos mais técnicos, público maior no estádio, hoje reduzido em função de vários aspectos como violência, indefinição de horários e calendários, além da situação financeira da população. Mas Fla-Flu é Fla-Flu, sempre cercado de muita mística, superstições, polêmicas, emoções e tudo mais. O fim de semana do torcedor tricolor e rubro negro depende única e exclusivamente do resultado da peleja e já começa com o desfile de camisas no sábado, as provocações são sentidas nas ruas, nos bares, nos shoppings, nos supermercados, nas feiras de domingo, nos parques, em toda cidade. Eu, particularmente durmo e acordo pensando no jogo, é um compromisso inadiável para a tarde de domingo, sofrer com cada lance, ter dor de barriga, roer unhas.

Hoje, com a idade mais avançada e o coração mais cansado, prefiro ir ao Estádio e não sofrer com a narração pelo rádio, onde o sofrimento é ainda maior. Lembro das narrações do Jorge Cury e do Doalcey Camargo; eram de tirar o fôlego e fazer o coração disparar a cada lance de perigo. Nos Fla-Flus, não agüentava ouvir um gol do Flamengo narrado pelo Jorge Cury, pois ele gritava uns três minutos e eu abaixava o volume do rádio e já no gol do tricolor eu me vingava pois sabia de seu sofrimento. Do Doalcey, lembro do suspense para narrar o desfecho da jogada: Disparooouuu...gol!

Que angústia!

Saudosos locutores! Saudosos tempos!

São incomparáveis a beleza e emoção da festa no estádio. Lá a gente grita, xinga, canta, pula, sofre, chora, comenta o jogo com o cara do lado, que nunca vimos mais gordo, nos abraçamos na hora do gol, reclamamos do juiz a cada lance polêmico.

Ontem, no intervalo, o Flu vencia por um a zero e no banheiro, em pleno ato público/fisiológico de urinar, um verdadeiro debate sobre as falhas do time e possíveis substituições a serem feitas, discussões táticas e outras cositas mais. O juiz é sempre lembrado, é claro! Aquela cervejinha ajuda a relaxar um pouco, o segundo tempo sempre promete, um biscoito de vento cai bem, um Geneal também.

O Fla-Flu pode nem ser maravilhoso tecnicamente, como o de ontem, por exemplo, mas sempre movimentado e polêmico. Ontem, tivemos o lance da bola que saiu(?) na cobrança de escanteio, segundo o bandeirinha, que anulou o suposto gol do Flamengo. Castigo! Foi cobrado por um ex-tricolor e tinha que sair mesmo. Ouvi um comentário de um botafoguense pai de um amigo tricolor, ambos presentes ao Estádio, que antes mesmo da cobrança do tiro de canto já havia sacramentado: a bola vai fazer a curva e sair, pois vai ser alçada por um canhoto e está posicionada no canto externo da marca de cal. Comentário tecnicamente perfeito, digno de um torcedor atento, que bem poderia ser tricolor. Pra mim já vale, não foi gol e pronto!

O jogo era nervoso e o Flu ainda teve um jogador expulso no início do segundo tempo ficando a coisa ainda mais complicada. A emoção foi até o apito final do árbitro decretando a vitória tricolor. Não poderia ser diferente; era Fla-Flu.

Ao final, eu, meu irmão mais novo e meu pai, o grande responsável por essa paixão ainda juvenil e quase irresponsável que trago no peito, nos abraçamos e comemoramos a vitória sobre o arqui-rival, cantando o hino junto à torcida na saída pela rampa de acesso da UERJ. Olhava meu pai, hoje de cabeça branca, já dispensado do pagamento do ingresso e me lembrava de quantos jogos já estivemos juntos ali, tomados daquela mesma emoção, da emoção que não envelhece.

Meu pai sentenciou então: O meu fim de semana foi feliz! Faltava a vitória do tricolor!

Viva o futebol! Viva o futebol carioca! Viva o Fla-Flu!


Jocemar de Souza Barros.
29/05/06

Monday, May 22, 2006

A cabeçada merecida

O Tricolor voltou a campo no fim da tarde de ontem.

Um outono discreto, com certo frio e céu cinzento, sobressaltado pela desclassificação de quarta-feira passada. Sim, nós, Tricolores, ainda estávamos – e estamos – com o gosto do fel por desperdiçarmos outra chance de ir às Américas, chance esta que parecia tão cristalina e que sucumbiu perante a força da Colina. Tínhamos mais do que time para lá chegar; faltou-nos, creio, maior vigor para a conquista da vaga para a final do certame.

Tudo isso tem sua carga de curiosidade e, cada vez mais, contra boa parte da mídia esportiva calhorda. Explica-se: dia desses, nosso Tricolor era basicamente o João Bafo-de-Onça do futebol brasileiro, o grande vilão, o responsável por todas as mazelas. Caímos para a terceira divisão com três derrotas, três! Quem será capaz de explicar tamanho descalabro? Por isso, nós, que ajudamos em muito a sedimentar as cinco conquistas mundiais da seleção brasileira, que estreou em nosso estádio e com nosso goleiro, passamos a sofrer todo tipo de achaque. Fomos ao inferno e voltamos. Nos últimos seis anos, nossas campanhas têm sido marcadas por quase conquistar muitos títulos, passando sempre na beira do quase; assim, a torcida do Tricolor, que exasperava-se com a possibilidade do fim do time há poucos instantes, hoje revolta-se com a não conquista de títulos. O amigo Marcos Caetano deixa sempre claro em texto: nós, tricolores, já ultrapassamos o estágio onde se precisa conquistar títulos. Certamente são desejáveis; entretanto, somos das Laranjeiras – nós criamos tudo o que de bom aí está e, dessa feita, estamos acima de troféus, dado que já os temos aos montes.

De qualquer forma, é natural que a torcida tenha seu momento de tristeza. Contávamos com a vaga e deixamos que ela pudesse escapar entre os dedos. Em virtude disso, menos de cinco mil tricolores adentraram Maracanã ontem para prestigiar o match contra o Santos, que não é mais o de Pelé e sim o de Luxemburgo, com seus ternos e gritos.

Éramos poucos e fazíamos algum barulho. Se querem saber sobre o jogo, diria que foi equilibrado e fraco, bem fraco. Nós entramos sob a égide do desânimo, do cansaço psicológico. O Fluminense pode e deve disputar todos os títulos que possam surgir pelo caminho; ao ficarmos frustrados com a derrota do meio de semana, nosso jogo ontem não foi o que espera. Talvez o Santos tenha sido melhor em maior parte do tempo, dirão os velhos idiotas da objetividade consagrados por Nelson. E daí? Nós fuzilamos o Vasco no primeiro empate, um show de bolas na trave; na segunda partida, em nosso único descuido, carregamos a cruz de Edílson. Na terceira, após um rápido empate ao voltar do intervalo, contando ainda com a trave salvadora que confirmou a cobrança de Petkovic, faltou-nos a força que sobra-nos em papel. Por que teríamos ainda que amargar mais azar depois de quarta? O que justificaria outro revés ontem, em nossa casa? Nada.

Os deuses do improvável jogaram seus aromas em nosso campo; melhor dizendo, na cabeça coroada do zagueiro Luiz Alberto, que nos proporcionou o golaço que não conseguíamos fazer há tempos. Não importa que tenhamos jogado mal, não interessa o diminuto público: nós merecemos vencer sempre e, se isso deixa de acontecer seguidamente, feito quando enfrentamos o Vasco, o adversário seguinte merece queimar no inferno da derrota – este inferno é o que saiu da cabeçada de Luiz Alberto para o ângulo direito do goleiro Fábio Costa. O mesmo Fábio que é recentemente marcado por grandes gols de cobertura a favor do Tricolor – ano retrasado, uma cabeçada certeira de Romário destroçou o então arqueiro de Parque São Jorge.

Ontem foi dia de orarmos com o terço do futebol. Graças aos credos, foi que expulsamos o fel da derrota para o inferno. Nosso destino é a glória, a conquista suprema, absoluta. Não deveríamos ter sido eliminados pelo Vasco e fomos. Não jogamos o suficiente para a vitória contra o alvinegro paulista, é certo. Contudo, foi nosso merecimento. Ou alguém acredita que, em sã consciência, a certeira cabeçada contra que nos garantiu o triunfo foi mera obra do destino?

Ledo engano.

Estava escrito, mais do que escrito, há muitos outonos gelados, desde antes do nascimento de Nelson. Desde antes do nascimento da nossa própria camisa, a cinza.

E foi em um Maracanã frio, gelado, de outono e penumbra que nós, Tricolores, começamos nossa nova caminhada, outros passos curtos para novas conquistas, pois.






O futebol é coisa séria

O futebol no Brasil é uma coisa muito séria.
Não estou falando do futebol do Brasil, do futebol praticado pela seleção brasileira, apesar de estar esperançoso e otimista com o escrete de craques confirmados pelo nosso controvertido treinador e seu fiel escudeiro tantas vezes vencedor. Tão pouco estou falando do futebol dos campeonatos disputados pelos nossos clubes de coração, das grandes agremiações espalhadas pelas diversas divisões de futebol do nosso país, que já não os acho tão sérios assim, visto os lamentáveis episódios ocorridos no brasileirão de 2005, e a situação atual que se encontram alguns dos principais e tradicionais clubes destas terras de cá.

Quando o digo sério, também não falo do futebol esporte, onde resultados inesperados são esperados, são passíveis de imensa e crédula torcida, pois muitas das vezes são concretizados. E isso só ocorre com este esporte, visto que não temos por aí loterias esportivas de outras modalidades, pois os resultados são previsíveis, até os imprevisíveis, veja só, quando temos partidas de basquete ou de vôlei entre equipes que se equivalem tecnicamente, onde pode vencer tanto este como aquele clube, é isto o que realmente acaba acontecendo, ora vence um, ora vence o outro, no futebol não, você pode ter dois times em igualdades de condições dentro e fora de campo, e ocorrer de apenas um sempre vencer, é aí que começam a nascer as ditas Escritas do Futebol, como se fosse algo já traçado nos destinos destes dois personagens, e que ajuda a envolver ainda mais de misticismo este jogo tão surpreendente.

E quem já não soube de um grupo muito mais fraco, sem nome, sem tradição, até literalmente sem camisa, arrancar das pernas dos seus jogadores e dos corações que vão parar nas pontas das chuteiras um resultado surpreendente, tudo bem que às vezes contam com ajuda dos chamados Deuses do Futebol, mas isso também faz parte da magia que o envolve. Ainda assim, não é este que quero mencionar.

A seriedade que me refiro vem do futebol que é praticado até por quem não tem afinidade ou não tem intimidade com a pelota, que é praticado apenas pela necessidade de inserção do indivíduo em sua comunidade. Falo do futebol que aparece como uma das primeiras formas de manifestação de valores morais dos meninos, onde aparece a organização voluntária em prol de um objetivo, onde aparece o líder que organiza a aparente bagunça com um simples par ou ímpar, onde aparecem os justiceiros, os defensores, os democratas, e os que possivelmente apresentarão problemas de desvio de conduta. Tudo isto pode ser observado neste futebol que classifico como sério. Tão sério, que se, durante a partida, no momento que aflorar este desvio de comportamento, o menino for orientado corretamente por um pai, um educador ou um ente querido qualquer que esteja preocupado com a formação desta criança, “esta alma poderá ser salva”, e deixaríamos certamente de ter tantos escândalos políticos, econômicos e sociais nos noticiários do nosso país.

Falo também do futebol agregador, do futebol que reúne as pessoas, do futebol que desliga os programas medíocres das televisões, que desconecta as salas de bate-papo da Internet, que os meninos maiores organizam pela simples necessidade de se encontrarem uns com os outros, do futebol sagrado, daquele que a esposa permite, que já está marcado como território conquistado, daquele que a agenda é completada em sua função, que não se marcam reuniões nem festas naqueles dias, pois é o dia da pelada semanal, é o dia de falar besteira, de falar coisa séria, tudo com muita cerveja gelada, de fazer um churrasco e um pagode depois do futebol, que pode ser durante ou antes também, do futebol que às vezes pode até nem ter futebol, esse sim, meus amigos, é coisa muito séria.

Nelson Carlos Câmara Borges 22/05/06

O novo Rei Zulu


“Mar-cão! Seleção! Mar-cão! Seleção!”

Com este carinhoso grito de guerra, desde 1.999, a grande torcida tricolor presente aos jogos reverencia o jogador Marcão, no momento em que a escalação da equipe das Laranjeiras é anunciada nos alto-falantes dos Estádios em que se apresenta.

Marcão realmente lembra os grandes cabeças-de-área do passado, o xerife do time, aquele que protege os zagueiros, rouba as bolas do adversário, funga no cangote, chega a todas as bolas divididas, comete faltas providenciais, questiona os juízes, encara os jogadores mais assanhados do time oposto, mostrando o “cartão de visitas” logo no início das partidas, corre o jogo todo, vai ao ataque no desespero, joga improvisado se preciso for, até no gol se não tiver goleiro. Bate córner e corre pra cabecear!

Chegou ao tricolor de mansinho, vindo do Bangu e com sua dedicação, raça e muita disposição, além do grande nível de profissionalismo, foi conquistando no clube e principalmente no coração da torcida, o espaço deixado pelo antigo Rei Zulu, o Denílson, nosso cabeça-de-área, também por muitos anos, nas décadas de 60 e início de 70.

Nunca foi protagonista de jogadas mirabolantes, de dribles maravilhosos, mas com suas constantes demonstrações de pura raça, nos momentos de aflição, quando às vezes a situação parece perdida para o tricolor, levanta e leva a galera ao delírio, roubando bolas ou chutando pra onde der. Joga para o time, em qualquer circunstância, faça chuva ou sol; nunca está envolvido em polêmicas fora de campo e outros bochichos, em situações políticas; joga com quem chegar ao clube, é amigo de todos. Enfim, Marcão é unanimidade nas Laranjeiras! Quem já tentou barrar o cara, sentiu a ira da torcida! É o eleito representante da mística e do orgulho encarnados na camisa tricolor!

Com mais de 350 partidas pelo Tricolor das Laranjeiras, é hoje talvez, o jogador de maior longevidade em um clube brasileiro, o que o aproxima ainda mais dos jogadores de décadas passadas. Do tempo em que sabíamos escalar qualquer dos times antes mesmo do Campeonato se iniciar. No Fluminense é Marcão e mais dez!

Muitas vezes não tem o devido reconhecimento da imprensa, pois mesmo quando é o melhor em campo, não passa de nota oito, mas dificilmente ganha menos de seis. Pra torcida, Marcão é sempre nota dez!

Não é o que se pode chamar de artilheiro. Faz poucos gols; porém, vem se notabilizando pela marcação de alguns, de grande importância como o da virada em cima do Volta Redonda na final do Carioca de 2005, quando o Fluminense sagrou-se Campeão Estadual. Marcou também o primeiro contra o Americano na final de 2002, abrindo caminho para a conquista do título daquele ano.

No último clássico contra o Botafogo, marcou um dos mais belos gols que presenciei no Maracanã. Digno dos grandes craques, daqueles gols que valeriam a nota máxima nas avaliações dos noticiários esportivos, se assinalados por Romários e Zicos nos bons tempos. Digno de placa! Bola alçada na área que sobra após disputa pelo alto, no limite da área pequena. A defesa adversária, estática, assiste estupefata, atônita, como que torcendo e esperando a bola entrar, consolidando a jogada de grande beleza plástica. O salto, a pedalada no ar e nosso herói de ébano acerta um chute certeiro e forte que estufa as redes alvinegras e enlouquece a torcida. Golaço! Inapelável! Lindo! Na mesma hora disparei: O ingresso já está pago! Golaço! Bicicleta! Tal como ensinou há tempos atrás o grande Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”.

Craques de nome passaram pelo clube nos últimos anos. Momentos de euforia, de tensão, de grande tristeza, crises, também passaram. Gerações inteiras de jovens jogadores apareceram e alguns já se foram. Outras promessas surgiram e também passaram. Enfim, tudo passa, mas Marcão resiste a tudo e a todos e continua. Herói absoluto e detentor das graças da galera! O novo Rei Zulu!

Mar-cão! Seleção!
Jocemar de Souza Barros

Salve o América!

Trinta e oito do segundo tempo, um a zero América, que levava o jogo sem maiores problemas para uma vitória bonita e justa.

A torcida cantava: “Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe sangue! Seremos campeões!”

De repente, o juiz marca um pênalti duvidoso, ou pelo menos rigoroso (coisas que acontecem e sempre aconteceram ao longo da vida do América). Quarenta minutos e o adversário empata.

Sufoco! A torcida se entreolha.

Morreremos na praia novamente?

O que estarão tramando os deuses do futebol agora?

Jogo terminado, um a um, começa a dolorosa e interminável disputa de pênaltis.

Por instantes parece que a baliza escolhida para as cobranças é a do lado oposto à torcida rubra. Engano. Parece que os deuses deram uma mãozinha.

A torcida não parece desanimada e acredita, incentiva e seca, grita o tempo todo!

Como não poderia deixar de ser, a disputa é nervosíssima e segue empatada até o final da série. Na última cobrança o adversário erra. Bola na trave!

Na euforia, cheguei mesmo a gritar: É Campeão!

Estava sacramentada a vitória do Mequinha, do Mecão, do América! Saaannngueee!

Os deuses e provavelmente mais um monte de americanos, presentes e ausentes, vivos e mortos, soprando a redonda para fora do gol, ajudaram e desviaram o último chute, que caprichosamente beijou a parte interior da trave e correndo perigosamente entre o goleiro e a linha do gol, decretava a vitória (e haja Isordil).

Como diria o grande cronista tricolor Nelson Rodrigues: “Estava escrito há três milhões de anos” América na final da Taça Guanabara após vinte e três anos de espera.

Taça Guanabara! Ah! Guanabara! Que saudades da Guanabara!

Saudades da Guanabara! Da baía de águas claras... Como diria o poeta na música feita em louvor ao antigo estado.

Que saudade do velho Campeonato Carioca!

Do América de Edu, Alex, Badeco, (quem não lembra?), ou do time: Rogério, Orlando, Alex , Geraldo e Álvaro, Ivo, Bráulio e Edu, Flecha, Luizinho e Gilson Nunes; do Bangu de Aladim e Paulo Borges; do Madureira; do São Cristóvão; do Campo Grande, etc, etc... e sem os Caixas D’Água, sem os empresários gulosos, sem os cartolas inescrupulosos.

Quem não se lembra das rodadas duplas entre grandes e pequenos, da geral, dos troca-trocas?

Torcida vibrando como há muito tempo não vibrava, nem lembrava.

Que emoção! Dia típico da Guanabara. Noite quente e céu estrelado! Lindo!

Maracanã de gramado impecável, majestoso tapete verde para coroar o espetáculo!

Foi de arrepiar qualquer ser humano com um pingo de sensibilidade e principalmente sendo amante do futebol, particularmente do futebol carioca.

Fiquei emocionado e porque não dizer, com inveja do torcedor americano (sou tricolor). Não por vencer uma partida ou chegar a uma final de torneio, mas por manter tão viva e forte essa paixão, esse amor por seu clube, por um clube afastado da mídia, tão combalido, muitas vezes alvo de piadas, de brincadeiras, por um clube que pouco jogou ou sobreviveu nas competições de que participou nos últimos vinte anos, por um clube dura e injustamente castigado e perseguido pelas próprias instituições que deveriam tê-lo ajudado a manter-se vivo, à altura de suas tradições, vitórias, glórias do passado e representatividade indiscutível conquistada dentro do cenário esportivo brasileiro e carioca.

A torcida, por incrível que pareça, ainda se renova. Talvez com menor velocidade e força que em tempos passados, tal o longo período de vitórias escassas.

Que emocionante ouvir o grito que vinha da arquibancada: “Ah! O Maraca é nosso!”

Há quanto tempo essa torcida queria e merecia soltar esse grito!

É, e o Maraca era mesmo do América! Afinal, o Maraca é tanto do América, quanto dos outros, que vivem gritando a cada jogo. Depois sair às ruas em gloriosa caravana de carros a buzinar e sacudir as bandeiras e camisas rubras.

Parar nos bares ao redor do Maraca e bebemorar. Tirar uma onda com os outros torcedores, ultimamente tão acostumados a encarnar no torcedor americano. Saaannngueee!!!

Vi crianças, adolescentes, jovens adultos e logicamente, os idosos, representantes máximos e pilares da legião de americanos, que certamente não cabe em meia dúzia de Kombis, como costumam dizer por aí.

Vença a final ou não, já valeu (mas acho que os deuses vão ajudar).

Fica a certeza de que o América está cada vez mais vivo. (Estou arrepiado escrevendo estas linhas).

Que fique gravada a grande lição de amor e paixão da Torcida do América. Lição de amor e paixão por um clube e pelo futebol!

América vovô! América centenário!
América, primeiro time de muitos e segundo time de todo o resto!
América, que inspirou tantos outros Américas pelo Brasil afora!
América, que é parte importante e confunde-se com a história dessa Cidade Maravilhosa!
América, que traz no hino a introdução do Hino da Cidade (Lalaiá, Lalaiá, Lalaiá, Lalaiá, Lalalaiá, Laiá, Cidade Maravilhosa, Cheia de encantos mil...).

Senti que hoje o Rio acordou mais feliz, a Guanabara mais feliz, o futebol mais feliz com a volta por cima do América!

Torcedores rubros saindo de casa com o peito estufado exibindo a camisa, tanto tempo guardada!

Torcedores de ontem e de hoje, que pouco se manifestavam e que muitas vezes desconhecíamos o verdadeiro clube de coração!

Já ia me esquecendo: O América é grande sim! Sempre foi e sempre será!

Deus abençoe o América!

Final da Taça Guanabara

Botafogo x América! Estrela Solitária x Diabo!

Jogo clássico! Como nos velhos tempos!

Maracanã cheio. É certo que nem tanto como nos tempos de cem mil torcedores, visto que a capacidade atual foi reduzida por questões de segurança e nova distribuição dos espaços foi feita para maior conforto do torcedor.

De um lado, a grande e fanática torcida do Botafogo, ocupando em preto e branco, três quartos do espaço na arquibancada. Do outro lado, a não tão grande, mas não menos fanática torcida do América, das camisas e bandeiras rubras, ocupando um espaço menor.

Uma festa e tanto, colorida, alegre e o mais importante, sem violência. Duas torcidas apaixonadas, respeitando-se e incentivando seus times, que é o que se deve esperar fora do campo de jogo.

Assisti ao jogo junto à torcida do América, meu segundo clube, pois sou tricolor de coração, mas tenho ligações afetivas com o clube rubro por herança familiar. Eu e outros torcedores de outros clubes, que também guardam uma grande simpatia pelo Mequinha, formando a chamada “torcida arco-íris”, pudemos presenciar uma bela demonstração de paixão antes, durante e ao final da partida, que definiu o Glorioso de General Severiano como Campeão da Taça Guanabara. A torcida do América, pequena de certo, proporcionou momentos de pura emoção, acreditando o tempo todo, cantando, chorando de alegria no único gol de seu time, e chorando de tristeza e decepção ao apito final do juiz.

No fundo, as duas torcidas trazem em comum, certa carga de sofrimento contraída nos últimos anos em função de seguidas situações de insucesso.

Os hinos apresentam pontos parecidos, com boa dose de nostalgia nas letras: “Botafogo! Botafogo! Campeão desde 1.910...”; e... “Campeão de 13, 16 e 22... Lalaiá”, trechos que ressaltam as glórias passadas, os primeiros títulos, lembranças de um tempo muito bom para os dois clubes.

O América, mesmo sem poder ser comparado aos grandes times do passado, teve lampejos de grande futebol, chegando a dar a impressão de que venceria o jogo e conquistaria o título tão sonhado. Na primeira etapa, a torcida em êxtase, parecia não acreditar no que via e entoava o hino seguidas vezes e provocava os adversários com as costumeiras encarnações, além das buzinas em coro, estridentes e ensurdecedoras.

A Estrela Solitária, por outro lado, também não brilhava como nos tempos de Mané, Paulo César e Jairzinho, é verdade. Porém, encheu de orgulho sua torcida, com a espetacular virada na etapa final.

Ao final, a vitória do Botafogo e a explosão da torcida alvinegra! Fogão Campeão!

Finalmente, na saída pelo corredor de acesso às arquibancadas, a última demonstração de paixão da torcida derrotada, como um último suspiro após o golpe derradeiro. Os torcedores briosos e emocionados, alguns ainda exibindo lágrimas nos olhos, com o peito cheio de orgulho, entoavam mais uma vez o hino do clube! Hei de torcer, torcer... Lindo! Emocionante! Ficou em mim e acredito que em todos os presentes, uma gostosa sensação de retorno aos bons tempos do nosso futebol!

Tempo em que as torcidas podiam conviver em harmonia e sair lado a lado pelas rampas da arquibancada. Brincando e sofrendo, mas principalmente se respeitando.

Felizmente, o grande vencedor foi o Futebol Carioca!

Parabéns ao América e ao Botafogo! Viva o futebol!

RJ, 17/02/2006. Jocemar de Souza Barros.

A volta do Campeonato Carioca


Final da Taça GB, América X Botafogo! Bem que poderia ser o prenúncio da volta do velho, charmoso e empolgante Campeonato Carioca e não o às vezes chato e sem graça Campeonato Fluminense da fórmula atual, com dois turnos pequenos, clubes divididos em grupos, com dois “grandes” (mas nem tanto) de cada lado, curtinho, que nem campeonato de peladas.

Digo “Campeonato Fluminense”, sem qualquer intenção pejorativa em relação ao nosso Estado do Rio de Janeiro, ao pseudônimo “fluminense”, utilizado antes da fusão dos antigos estados da Guanabara e o Estado do RJ. Também nada contra os clubes como Americano, Volta Redonda, Cabofriense e outros tantos; porém, entendo que poderiam ter seu espaço e reconhecimento, mas não em detrimento dos antigos pequenos e cariocas como, Campo Grande, São Cristóvão, o próprio América e o Bangu, considerados grandes nos bons tempos, além de outros.

Por que a total falta de apoio a estes clubes, a ponto de não se ter mais notícias? Clubes que outrora, revelavam grandes jogadores, que na maioria das vezes eram contratados pelos grandes para as próximas temporadas e despontavam pelo Brasil afora.

Quem não se lembra do Olaria com Miguel, Afonsinho e companhia; do Madureira de Roberto Pinto (sobrinho do Jair da Rosa Pinto), Paúra, Osni e Russo (aquele do gol do Corinthians contra o Fluminense no Brasileiro de 76 – o jogo da invasão corinthiana); do Bonsuça de Abel, do Bangu de Aladim, do São CriCri, que chegou a ter o Fio Maravilha e de onde saiu o Ronaldinho Fenômeno.

Consideremos, é claro, a evolução que o tempo nos impõe, às vezes de forma um tanto cruel. Não sejamos tão saudosistas!

Mas alguma coisa está estranha, ou não?

Todo mundo que conheço fala a mesma coisa, até os de menor idade, que só viveram o finalzinho dessa época. Por que os grandes do Rio não chegam a lugar nenhum nas disputas de alcance nacional, nem nos torneios de juniores como a tradicional Taça São Paulo? Bem, isso é papo pra especialista e eu sou apenas torcedor!

Sei que é difícil querer a volta de algumas coisas, que como já disse, a evolução trata de transformar em lembrança, memória, passado. Mas ainda acho que no futebol profissional dos laptops a beira do gramado, da alta tecnologia fora dos campos, que nos permite ver os jogos a cores e ao vivo, as jogadas por vários ângulos, conferir nos tira-teimas os lances polêmicos e duvidosos, ainda cabe um pouco de amadorismo no bom sentido da palavra, no sentido de amor ao esporte e não só ao dinheiro. Dá pra resgatar ou manter alguns valores ainda vivos.

Afinal, como disse um tio meu, torcedor do América, a bola ainda continua redonda, com vinte e dois homens a persegui-la dentro do campo e a torcida ainda apaixonada por seus clubes e pelo futebol.

Será que o menino de hoje não sente a mesma emoção que sentia o menino de trinta anos atrás, ao entrar pelo corredor apertado de acesso à arquibancada e se deparar com o tapete verde do campo do Maracanã e o anel repleto de pessoas a gritar e cantar num tremular frenético de bandeiras? É inesquecível! Trago essa imagem e emoção até hoje guardada na memória, e ainda me emociono quando entro no estádio.

Lembro-me de sair de casa cedo para assistir à preliminar de juniores aos domingos, pegar o trem cheio em Madureira, com a galera já aquecendo e batucando nas portas e no teto do vagão, de buscar no radinho de pilha as notícias fresquinhas do meu time (Fulano joga? Era dúvida até ontem...), descer na maior gritaria na Estação do Derby Club.

E o Campeonato de Aspirantes? E o Torneio Início, disputado em um dia? E as rodadas duplas no meio de semana? E a geral? E aquele cachorro quente da Geneal, e o Mate Leão que o vendedor despejava com pressão no copo de papel e a gente pedia pra completar o espaço deixado pela espuma? E o amendoim torrado, e o biscoito de vento (isso ainda tem...)? E os torcedores símbolos, como o “Careca” na torcida do Fluminense, enrolado o jogo todo na bandeira, a jogar pó de arroz nos “felizardos”? E a página do “Globo” no dia após a rodada do final de semana com o Diploma de Sofredor e o Placar Moral das partidas? E Nelson Rodrigues? E Otelo “O Caçador”? E a violência que não havia; mas isso tem outras explicações mais complexas, que também não cabe aqui discutirmos, embora saibamos que alguns dirigentes tenham uma boa parcela de culpa na questão do acirramento entre algumas torcidas.

E os ingressos nas bilheterias para todos e não pra cambistas, além das contagens de público pagante e presente mais coerentes com o real?

Tudo bem. Sabemos que o tempo passa, as coisas mudam e algumas não podem mais voltar. Nós mesmos não voltamos dos quarenta aos vinte anos de idade, mas nossa paixão continua a mesma, não envelhece.

Em nome dessa paixão de todos nós brasileiros e cariocas em especial, dessa paixão que provoca insônia na noite anterior ao grande jogo, frio na barriga minutos antes da pelota rolar, da paixão que não nos deixava chegar atrasado à seção de cinema, para ver e vibrar com as belas imagens do Canal 100 (aliás, será que não dava pra reeditar ou fazer alguma coisa nova na mesma linha?); por tudo isso é que sonhamos com a volta do Campeonato Carioca; ou com a volta, pelo menos de parte de um tempo mágico do nosso futebol, do tempo em que sabíamos a escalação completa dos principais times, decorando-as por anos seguidos; tempo em que os garotos tinham batizados os nomes dos jogadores em seus times de botões - tempo em que beijar o escudo, a camisa de um clube, não soava tão falso como hoje em dia.

RJ, 16/02/2006. Jocemar de Souza Barros.

Friday, May 19, 2006

O tiro de meta

Fiquei observando a televisão de forma ocasional.
Era um jogo de bola, desses de garotos pelos quais ninguém dá nada ainda e, quando ninguém espera, oferece jogadores para ainda manter viva a chama do nosso futebol, tão combalido nos dias atuais.
Jogo num estádio do interior, transmitido pela rede pública, reprisado numa madrugada, João tocando e a partida correndo enquanto paralelamente eu lia jornais. Interrompi a leitura por instantes, fitei a tela e me deparei com um tiro de meta. Não era uma jogada qualquer, era um tiro de meta. No instante, o único ser vivo na tela focada a grande distância era o goleiro, um solitário goleiro com a responsabilidade de reconduzir o jogo carente de torcedores, repórteres e outros participantes - imagem que permaneceu por muitos segundos, dado um bloqueio momentâneo na transmissão. Eis que a televisão me pareceu como um grande quadro, uma monumental aquarela, com aquele solitário menino estático a observar a bola e pensar em como iria chutá-la, para onde e com que força, tudo cercado pelo silêncio que só a voz de João é capaz de fazer ecoar. Mais segundos, mais silêncio, mais solidão do goleiro na tela como se ninguém mais estivesse no estádio a apreciar sua intenção, exceto eu. Quando se pensa em futebol, é certo que muitos imaginam o grande gol, a jogada mirabolante, o passe apurado, o domínio com categoria, o drama do pênalti.
O tiro de meta, meus amigos, é um importante momento marginalizado: difícil a sua consecução terminar em algum dos lance anteriormente descritos. Entretanto, não sei se pelas substâncias e solidão a mais ou alegria de menos, pus-me a contemplar aquela imagem congelada como um princípio de esperança - era um tiro de meta, amigos. Naquele tiro, naquela cobrança é possível identificar até um cotidiano de nossas vidas: é do tiro de meta, após um interrupção, que o jogo recomeça.
Mais substâncias, tracei em minha confusa memória uma relação com minha própria vida, machucada por revezes que deveriam sair por uma imaginária linha de fundo, representados por uma bola. A vida, amigos, ávida por si própria, voltaria após breve intervalo a ser vivida tão logo fosse trocada a bola por outra e a devida reposição pelo tiro de meta seria um recobrar de ânimo, um renascer das cinzas, um poente a abafar a tempestade - talvez seja este o significado da expressão popular "bola pra frente", não vinda de um lançamento primoroso mas sim do desprezado e esquecido tiro de meta. Talvez daí seja a razão do futebol ser tão apaixonante e cobiçado por gente de todo o mundo; no jogo, podemos encontrar relações diretas com nosso viver através da vida e morte do jogo: a derrota pelo gol sofrido e a alegria pelo tento marcado; a beleza da jogada articulada e a besteira da bola perdida; a pressão que não derrota através do chute que vai pela linha de fundo e o recomeçar por, somente por ele, pelo especial tiro de meta.
É preciso entender a força, o vigor e a esperança que um tiro de meta é capaz de mostrar.
É preciso notar a perspectiva que um tiro de meta pode trazer a um jogo do bola, tão preciso quanto um recomeçar na vida depois de uma derrota circunstancial.
Quando a imagem voltou, o goleiro continuou solitário; desferiu o chute e a bola foi para o meio de campo, com vários jovens a disputá-la numa outra imagem.
O estádio continuava vazio e é possível que eu fosse um dos poucos telespectadores.
Depois do revés, o jogo recomeçou tal qual minha vida faz e fará após um desânimo marcante porém passageiro, efêmero feito uma nova bola num canto de linhas de cal.

Paulo Roberto Ândel - 19/05/06