Friday, September 10, 2010

FLUMINENSE 3 X 1 CEARÁ (08/09/2010)



Sobre oscilações (09/09/2010)


Uma desagradável derrota. Uma vitória praticamente tranqüila. A defintiva perda do mando de campo. A fúria da imprensa golpista. Uma crise desnecessária e a demissão do médico. Meus amigos, esta foi a recente semana do Fluminense, a mais conturbada desde que começou o campeonato brasileiro. Ao fim da rodada, a constatação: somos os líderes, mais líderes do que éramos no domingo passado, mas ainda com contas a ajustar, alguns problemas e necessidade de soluções que não comprometam a equipe Tricolor.

Começamos mal. A derrota para o Guarani aconteceu de forma indigesta. Foi evidente que mostramos um mau futebol, mesmo quando abrimos o marcador com o gol de Emerson, escorando passe de cabeça dado por Washington. Marcamos cedo, mas antes disso o Guarani já ocupava nosso campo, embora sem a menor objetividade nas conclusões. A seguir, mesmo com Conca e Deco errando bastante, até mesmo Mariano sem a força que se espera dele no ataque, o Fluminense teve uma ou duas chances de aumentar a vantagem, até que houve uma falta e... bem, não quero parecer aos mais jovens como um velhote ranzinza, mas vocês, eles e todos já sabem de outras crônicas o que penso sobre uma falta perigosa contra o Fluminense: absoluto risco de gol, devido à falta de capacitação técnica do rapaz que hoje veste a camisa que já pertenceu a Marcos Carneiro de Mendonça, Batatais, Castilho, Félix, Renato, Wendel, Paulo Victor – todos estes, goleiros de seleção brasileira. O canto direito baixo é sempre uma pedida de gol, referência, mas pode ser no meio do gol ou mesmo num toque sutil por cima da barreira, sem força. É o que bastaria. Foi o que bastou. O veterano Baiano empatou a peleja e fez o Guarani crescer, embora timidamente.

Quem tem um treinador como Muricy espera sempre o melhor de um intervalo, a mudança principalmente num dia de pouca inspiração. Mas não aconteceu: o Fluminense voltou mal, muito mal. Abusava dos passes errados, da falta de velocidade, esbarrava nitidamente em si mesmo e nem de longe lembrava o líder do campeonato. Conca e Deco não mostravam o brilho de outras temporadas. Washington tratava a bola como se fosse um boxeur. O Sheik saíra contundido. Com tudo isso, nós acreditávamos na perspectiva de um empate, frustrante na campanha como um todo, mas importante diante das circunstâncias negativas daquele domingo. O Guarani quase não chutava, embora alugasse nossa intermediária. Num time que tem uma má jornada, a defesa e o meio de campo titubeiam; nessas horas, quem tem que aparecer é o goleiro. Então veio uma falta e outro veterano se apresentou: o engraçado e razoável zagueiro Fabão. Sempre é difícil para qualquer goleiro quando, numa cobrança de falta contra si, a sua barreira abre e a bola passa por ela, desde que chutada com violência, o que quase impossibilita a defesa. A bola de Fabão seguiu exatamente este roteiro, com uma exceção: não foi chutada com enorme força e ainda ficou mais minguada quando foi amortecida pelo meio da nossa barreira. Quicou e, se tivéssemos um goleiro à altura das tradições das Laranjeiras, bastaria um passo para a esquerda, o encaixe no peito e a reposição. Como não temos, a bola ganhou o canto esquerdo, mansa, o Guarani venceu o jogo e todo o Brasil assistiu aos patéticos gestos tresloucados do Perseguido, saracoteando em protesto como se a barreira fosse a grande vilã do jogo, mas na verdade praticando uma pantomina que tirasse a atenção de si. Não adiantou. Os nossos fanáticos que estavam atrás do gol, na arquibancada, souberam vaia-lo com dignidade. Assim, o Fluminense perdeu a partida, teve quebrada a sua sequência de invencibilidade no campeonato e, para delírio dos fogueteiros da imprensa, lhes forneceu amplo material para chacotas e dúvidas sobre a real capacidade do líder Tricolor. Uma verdadeira festa setembrina nos impressos. Parece que nunca aprendem a lição, feito ano passado, quando decretaram o Fluminense morto e tiveram que oferecer as gargantas a uma poderosa espinha. Até o decano Kfouri, sem esconder sua paixão corinthiana, renovou seus votos de que o Fluminense não será campeão. Coitado. Uma hora, o Inter; noutra hora, o Cruzeiro; noutra, o Corinthians. São todos bons times, mas o líder é o Fluminense. E os corinthianos estão se sentindo como se fossem a própria Gávea: já contam com os três pontos da partida adiada na semana do aniversário alvinegro, como se fosse canja de galinha derrotar o Vasco em São Januário.

Com o espírito de dúvida, voltamos a campo contra o Ceará, ontem, no Engenhão, no já folclórico horário das dezenove e trinta, que fez do bonito estádio uma consagração de seu apelido: “Vazião”. Cinco mil lordes e damas ocuparam o João Havelange e, sob certo desconforto por causa do bombadeio da imprensa, cerraram os olhos com desconfiança quando o Fluminense entrou em campo. Felizmente, um ledo engano de todos nós: foi o primeiro tempo mais fácil de todo o campeonato até agora. Três a zero que poderiam ter sido seis ou sete, tamanho o número de oportunidades que perdemos. Washington marcou dois e perdeu três. Mariano na frente da área, perdeu um gol incrível. O Ceará batia cabeça e, a quinhentos quilômetros do Engenhão – mais precisamente em São Paulo e Curitiba, os mais-queridos da CBF viviam o mal-estar: o Parque São Jorge precisaria vencer de qualquer maneira para encostar no Tricolor. Reitero: vencemos com absoluta soberania o primeiro tempo e colocamos um pé e meio nos três pontos da noite. E foi isso que prejudicou o segundo tempo: o Fluminense decaiu completamente em termos de velocidade e ofensividade. Novos rounds de Washington com a bola. A rigor, destaques firmes ficaram por conta de Mariano, sempre ele com sua raça e dedicação incessantes, o argentino Conca, com algumas maravilhosas jogadas e grande participação nos gols e lances de perigo, além da nossa defesa, mais precisamente Leandro e André. Timidamente, aos poucos o Ceará, animado com as mexidas em seu time, tentou atacar mais – melhor, tentou atacar, o que não tinha feito na primeira etapa. Perdemos um gol, dois gols, três gols e tudo num dia em que poderíamos aproveitar para ampliar o importante saldo, que pode ser decisivo no futuro. Quando a partida chegou a quinze minutos do fim, aí as coisas complicaram. O Ceará criou alguns lances e tudo levava a crer que, por saídas confusas, socos na bola mal-dados e o pé onde deveria estar a mão constituíam indícios de que não sairíamos sem sermos vazados. Uma bolinha marota, outra e outra. No contra-ataque, Marquinhos e Carlinhos montaram uma forte blitz ofensiva; mais ainda: Marquinhos salvou um gol feito do Ceará, tirando a bola em cima da linha com o goleiro evidentemente batido no lance, como reza a tradição. A torcida não perdoou e, a cada mau lance do Perseguido, gritava como se fosse um gol. Infelizmente, as suspeitas se confirmaram e, ao fim do jogo, o veterano Geraldo entrou na área e, diante de um goleiro que não sabe sair do gol, apenas tocou com fraqueza no meio da meta. Foi o suficiente para que apupos aumentassem, não pela atuação do time como um todo – afinal, o segundo tempo lento foi conseqüência da boa primeira etapa, mas sabemos que um líder precisa impor a sua força, ainda mais jogando em um novo campo como será daqui por diante. Era importante pontuar; conseguimos. O poderoso e beneficiado (mais uma vez) Corinthians não venceu no Paraná; então, continuamos mais do que líderes.

Quando ares de tranqüilidade pareciam soprar na Pinheiro Machado, a torcida do Fluminense se depara com uma entrevista de Fred, acusando o Departamento Médico do clube de prejudicá-lo, ao lhe conceder uma alta precipitada para a volta aos campos. Uma confusão típica de um clube que tem uma história e torcida lindas, que é um paradigma dos melhores momentos do futebol brasileiro, mas que hoje é dotado de uma administração confusa mesmo que mostre resultados no gramado. Doutor Simoni, o chefe do Departamento, pediu demissão e mostrou enorme contrariedade com o artilheiro. Foi dada a senha para mais achincalhe do Fluminense nos jornais. Não havia o que escrever sobre a vitória fácil de quarta, então apelaram. Kfouri, radiante, já decretou o fracasso do Fluminense e a taça para a Toca da Raposa. Ao lado da adminstração Tricolor, do goleiro Perseguido e de boa parte da imprensa esportiva, é mais um que não aprende – e vejam que o ano passado se constituiu em uma verdadeira fábrica de besteiras contra as Laranjeiras. Torço para que os problemas internos sejam mantidos em ambiente fechado.

Não estamos no melhor momento de nosso futebol. Existem problemas. Mas onde estão aqueles que escreviam “se o campeonato acabasse hoje...”? Sumiram? Pois bem, meus amigos, se o campeonato acabasse hoje, mesmo com todos os problemas, o campeão do Brasil teria o seguinte nome: Fluminense Football Club.

Ainda é muito cedo para alijarem a centenária e definitiva camisa Tricolor do pódio. Nosso paragoleiro é uma caricatura. Nosso atacante que faz gols também os perde. Nosso craque maior se destempera diante do microfone.

Mas ainda é muito cedo.

Muito cedo.

Somos o time do último minuto.

Os anos de 1976, 1983, 1995 e 2005 aí estão para respaldarem a história, não a falácia.


Paulo-Roberto Andel

1 comment:

William Coelho Vianna said...

Mais uma vez, seu texto é impecável. Saudações tricolores, nobre amigo.