Monday, August 14, 2006

Mais da "freguesia"...

Conforme já declarei, acredito em freguesia. Por isso tive um bom motivo para assistir a Fluminense X Cruzeiro no dia dos pais. Nos últimos anos, no que se refere a clássicos nacionais, a maior "freguesia" tem sido neste confronto (meu amado Fluminense não bate o São Paulo no Morumbi desde 84, mas pelo menos ganha no Maracanã; já o Cruzeiro perde pro Flu no Mineirão – os últimos dois duelos travados nos gramados de Minas Gerais foram 3x2 pro tricolor.).
O Fluminense estava estreando o novo treinador, Josué Teixeira, que tem sorte no jogo, pois comandou a equipe em alguns jogos em 2006 e ganhou todos. "Freguesia" à parte, a sorte ajudou ao Fluminense na última rodada do Brasileirão, pois o mal escalado time das Laranjeiras saiu de campo com mais três pontos.
Aos 23 minutos do primeiro tempo, escutava um comentarista de futebol de uma rede de TV aberta dizer que o clube carioca desempenhava um futebol fraco, e profetizar que o mesmo entraria em desespero em breve, pois o Cruzeiro “melhor na partida busca mais o gol e o Fluminense não tem jogada, não chegou nenhuma vez a área adversária”. Pois é...o caro comentarista vascaíno gosta de ver o Flu perder, e estávamos sim passando por uma fase ruim, mas com gigante não se brinca, e de gigante não se espera pouco! Em menos de dois minutos, o lateral esquerdo Marcelo, que tentava uma tabela com Tuta pela direita, viu o atacante cair, a bola que seria cortada bater em sua cabeça e o zagueiro adversário ficar com a sobra para cortar a tentativa de ataque. O garoto que saiu de Xerém para a Seleção entrou na área, passou pela defesa, roubou a bola, enganou o goleiro Fábio e chutou para o gol. Um a zero para o Fluzão!

O Cruzeiro estava a fim de estragar a festa dos tricolores e, minutos depois, a defesa do Flu falhou e numa jogada de escanteio o time da casa empatou. O primeiro tempo seguiu com este placar até o fim. Se quisesse vencer, Josué que entrou com uma formação 3-6-1 teria que mexer no time e no esquema tático.

O Fluminense voltou diferente para o segundo tempo; o armador Juliano deu lugar ao atacante Cláudio Pitbull. Quem mostrou mais eficiência no princípio do segundo tempo, no entanto, foi a Raposa, que virou o jogo aos seis minutos da etapa final. A equipe carioca precisava da vitória, principalmente em função da semana conturbada que viveu após a derrota para a Ponte Preta, na qual torcedores fizeram um papelão, embora tivessem motivo para tal. No lugar do zagueiro Thiago, entrou mais um atacante, o Beto, vestindo a camisa 18. A partida ganhou mais movimentação e o Fluminense passou a criar mais oportunidades de gol, até que aos 25 minutos, Roger recebeu um cruzamento da direita e concluiu. A conclusão saiu errada, mas a pelota morreu no fundo da rede (Típico gol que só "freguês" toma...) depois que o goleiro convocado por Dunga caiu e não alcançou a bola.

A partir daí, os dois times passaram a buscar a vitória (os dois tinham vencido pela última vez no dia 12 de julho, quando terminou o recesso marcado pela Copa do Mundo), da qual tanto precisavam. O Cruzeiro colocou mais um atacante e o Flu lançou Romeu no lugar de Ângelo. O jogo se encaminhava para um empate, ruim para as duas equipes, quando em jogada de Petkovic, que anda em baixa com a torcida tricolor, Cláudio Pitbull recebeu e finalizou - senti o gol, principalmente porque meu querido irmão disse que a jogada não ia dar em nada, ao mesmo tempo em que meu pai criticava o ataque do nosso time. Pitbull bateu, Fábio rebateu e Tuta marcou.

Depois da partida ficou claro que: a defesa do Fluminense tem que ficar mais atenta, para não tomar gols bobos e evitáveis; o meio de campo tem que ser mais criativo, levar a sério os treinamentos e criar mais jogadas; o Tuta tem que ficar dentro da área e não sair em busca do jogo, pois foi jogando assim que foi o artilheiro tricolor em 2005; além do nosso camisa 9, outro atacante tem que jogar como titular, alguém de velocidade, que canse a defesa adversária e ajude a criar jogadas que possam resultar em gol, de preferência o Beto; as revelações de Xerém têm que ser tratadas com carinho e seus contratos redigidos com cuidado, pois não adianta formar craques e só colher os frutos por seis meses, já que depois desse tempo são negociados com clubes árabes, russos, turcos, da terceira divisão de Portugal, etc.

De minha parte, fica a torcida para que o time melhore, ganhe confiança, conquiste resultados melhores e apresente o belo e glorioso futebol ao qual os torcedores das Laranjeiras estão acostumados - aquele que remete às palavras do mestre Parreira:
“ - Isso aqui é o Fluminense, é o Fluminense!”
Rita Sussekind, 14/08/06

O fim da era (?)

Não seria possível resistir a uma derrota tão absurda, ainda mais impactada pela sequência de maus resultados anteriormente obtido. E ponto: Oswaldo de Oliveira não é mais o treinador do Fluminense.
Cabem algumas considerações a respeito.
Uma, relativa ao fato da péssima lição de casa que o Tricolor tem ensaiado este ano, ao contrário de outros: trocar de técnico como quem troca de camisa suada. Entre 1999 e 2005, o Fluminense marcou seu trabalho pela manutenção de treinadores; se os resultados não foram exatamente os que se esperava, ao menos foi resgatada a tradição competitiva do time das Laranjeiras - dois títulos estaduais, algumas decisões e outras excelentes boas colocações. E 2006? A bagunça impediu até que o Fluminense disputasse ao menos as semifinais dos turnos do campeonato estadual. A campanha no Brasileiro, embora considerada boa em termos de pontuação, não dá segurança aos torcedores em termos de expectativas de título, nem mesmo de chegada à Libertadores.
É preciso lembrar que Oswaldo, embora respeitado e marcado por uma postura ética intocável, não é e nem nunca foi o que o Fluminense precisava quando o contratou: um armador de times, um arrumador. Sua trajetória no futebol brasileiro demonstra isso. O resultado foi que, embora conquistando os pontos, o Flu ressentiu-se de padrão de jogo, padrão tático e, incrivelmente, entrosamento. Sempre me chamou a atenção nas últimas partidas a demora de Oswaldo em perceber, muitas vezes, o óbvio: a necessidade de mudança na equipe. A insistência com Tuta e Rogério também foi um enorme complicador. Petkovic está muito mal? Evidentemente que sim. Contudo, porque substituir regularmente o único jogador que, embora em péssima fase, ainda possa ter um lampejo, ao contrário dos que nunca eram sacados e que também nunca tiveram qualquer lampejo ou coisa que o valha?
A volta da competição, após a Copa do Mundo, selou o destino de Oswaldo. Parece que querem efetivar Josué Teixeira, que já assumiu o time interinamente. Bom, talvez seja mais razoável deixar no comendo alguém que já acompanha o grupo do que apostar em mais uma aventura naufragável, tal como as de Ivo Wortmann e Paulo Campos.
Apesar de algumas limitações, time o Fluminense tem. Falta orientação e comando. Falta ajustar as peças; explorar umas, sacar outras.
Hoje, ninguém é melhor do que Josué para esta tarefa.
Amanhã, não se sabe.


Paulo Roberto Andel, 08/08/06

Sinal de alerta

Os resultados do fim de semana, definitivamente, trouxeram aos torcedores da Guanabara um verdadeiro pote de temores e incertezas quanto às possibilidades dos times cariocas na competição maior do país, que é o campeonato brasileiro.
No sábado, embora não tenha cumprido uma jornada necessariamente ruim, o claudicante Flamengo só conseguiu a vitória contra o escrete de Goiás no final da partida, em uma rebatida que sobrou para Obina. Ainda pouco para a grandeza do Flamengo, muito mais perto da famigerada zona de rebaixamento (aliás, uma constante infelicidade nos últimos anos) do que da disputa pelo tope da tabela. A importante conquista da Copa do Brasil deve ser deixada de lado desde já - é preciso crescer neste campeonato antes que maiores riscos possam comprometer as estruturas da Gávea, e ainda montar o time para a Libertadores de 2007 (embora, em termos de futebol carioca, compreenda-se seis ou sete meses de antecedência de preparo como um verdadeiro século). Mais ainda, sabe-se que o time da Copa do Brasil não é suficiente para uma boa campanha no Brasileiro e em nenhuma outra competição.
O domingo foi trágico.
O Vasco perdeu para o Paraná em um jogo que revelou a sua clássica deficiência nos últimos tempos: o arremate. A jogada final que antecede o gol. A equipe cruzmaltina teve vários contra-ataques a seu favor; contudo, a deficiência não permitiu nenhuma grande finalização no primeiro e segundo tempos, sem contar o gol vascaíno, mais fruto de desatenção paranista do que propriamente do talento de São Januário. O Vasco seguramente está na melhor classificação recente em campeonatos brasileiros, entre os dez primeiros, quando sua prática ultimamente era ficar à frente da ZR. Percebe-se que o principal problema do Vasco é mesmo o material humano: há que se louvar o trabalho de Renato como comandante, mas o elenco é de uma limitação enorme - embora isso não signifique que não se possa evoluir num campeonato marcado pelo baixo nível técnico.
Em Volta Redonda, o Botafogo ficou no empate com o São Paulo. Melhor dizendo, com o time reserva do São Paulo - o que, de certa forma, não quer dizer muito, já que o elenco suplente do Morumbi é mais forte do que o de boa parte dos times titulares que disputam o campeonato. Qual outro time do país teria como reservas jogadores como Thiago ou Alex Dias? O complicador do resultado foi que o alvinegro voltou para a ZR, e isso sempre causa um tremendo mal-estar desde 2002, ainda que passageiro. O Botafogo está pagando o preço da ausência de peças de reposição para jogadores importantes como Lúcio Flávio e Dodô; mais ainda, o preço de se imaginar que o elenco para o Carioca era suficiente para o Brasileiro, mais ou menos na mesma linha de pecado do Flamengo. O campeonato está chegando quase ao final do turno, e o alvinegro precisa de uma reação breve, para não ter que sofrer até o final do ano. Maiores alegrias? Pouco provável.
O desastre da rodada coube ao Fluminense. Mesmo fora de casa (o que nem deveria ser algo tão importante quando se trata de grandes clubes), o Tricolor enfrentou um time que estava entre os últimos colocados, que entrou em campo com seis desfalques inesperados, que ficou boa parte do jogo com dez jogadores e...perdeu de três a zero. Não se pode jogar a culpa do péssimo resultado em cima da também péssima cobrança de pênalti feita por Petkovic, logicamente desperdiçada. O Tricolor foi ostensivamente dominado e, se tivesse encarado um adversário que dispusesse de recursos técnicos mínimos, poderia ter levado uma goleada histórica. Estranhíssimo é o fato de um time que, em treinamento durante quarenta dias na interrupção do campeonato, voltou com jogadores visivelmente fora de forma, sem ritmo de jogo e completamente desentrosado. A torcida certamente esperava bem mais de Oswaldo de Oliveira - que, com o resultado obtido, poderá até deixar o cargo, causando ainda mais confusão no desorientado barco das Laranjeiras.
Esperemos a sequência para notícias melhores. Assim seja.
Paulo Roberto Andel - 07/08/06

Tuesday, August 08, 2006

Amuleto de Franco

Acabou a ressaca pela festa da conquista da Copa do Brasil. O jogo contra o CAP não pode ser considerado pois ocorreu como aquelas brincadeiras de final de ano, um time de caras com mais de 30 anos gordinhos bêbados vai jogar contra uma equipe de crianças e acaba perdendo. Foi isto que ocorreu na Arena da Rebaixada.

Com a parada do campeonato para a Copa do Mundo o Mengão deixou de se preocupar com o Brasileiro, a prova maior disso é que conquistamos 3 derrotas e 1 empate enquanto o Super-Vice venceu 3 delas. Uma prova que o planejamento foi bem executado é que o Super-Vice continua sendo o Super-Vice.

A partida tinha como apelo o primeiro jogo em casa após a conquista sobre o Vasco, a volta de Sávio e, de forma inesperada, o possível último jogo de Jônatas pelo clube. Como o Flamengo é o único time carioca que tem torcida atuante esta não titubeou e marcou presença com mais de 40 mil pagantes. E não se arrependeu! Com Sávio lembrando, aos 32 anos, o menino louro de 20 que não tomava conhecimento dos marcadores a Nação matou as saudades.

Porém o velho problema se repetiu: o time não faz gols. Desde 2003, o Flamengo é o time que menos marcou gols de todos os que disputaram as 4 edições com turno e returno, porém também leva poucos gols. Este fato merece um estudo.

As chances foram criadas e perdidas. Com Luizão ainda sem condições e os zagueiros do Lopes, fazendo o que seu comandante mais gosta, batendo no Sávio o pouco poder de fogo do esquadrão rubro negro fez-se presente mais uma vez. Com certeza é uma das mandingas da torcida Arco-Íris que pegaram.

Ney Franco tem estrela. Mais uma vez mudou o esquema e conseguiu o resultado que precisava. Sacou Léo, que vinha fazendo a função de líbero, e colocou Obina. O atacante baiano com nome de nigeriano, mas se chama Manuel mostrou que não sabe fazer gols porém consegue marcar quando é mais necessário. Já virou o amuleto da torcida. Contudo a vitória não veio fácil, o Goiás conseguiu equilibra a partida, já que ganhou o meio-campo, mas também não sabe fazer gols. Então, da mesma forma que ocorreu no jogo contra o CAP, o time que estava sendo atacado acabou marcando com o ‘Amuleto de Franco’, que resolveu mais uma vez.
Assim Obina colocou a truculência de Lopes e sua gang em um lugar de onde não devia ter saído.

Como não há no elenco outro jogador com suas características Jônatas irá fazer falta o time. Opções não faltam: Léo Medeiros sai na frente por já trabalhar a mais tempo com Franco, Junior parece que desistiu do time (a torcida já desistiu dele há séculos), Toró também pode aparecer ali e Renato pode fazer essa função, abrindo espaço para Peralta, Renato Augusto ou Fellype Gabriel.

O resultado fez o time ganhar 4 posições na tabela e a próxima partida será novamente em casa contra a Ponte Preta que com seu time de reservas conseguiu humilhar o Fluminense.

Vejamos o que acontece.

Friday, August 04, 2006

Du barulho...

Não assisti nem sei o que ocorreu durante o match entre Cabofriense e Madureira, jogado na última quarta-feira no Alair Corrêa, na terra de onde saí na semana passada. As únicas notícias que tive antes da partida começar eram as de que ao Tricolor Suburbano só a vitória interessaria, pois tinha acumulado parcos quatro pontos em cinco jogos, e ao antigo Fluminense de Cabo Frio um empate bastava, talvez até uma derrota, para a classificação à segunda fase da regionalizada Série C.

O jogo terminou 2 a 1 para os donos da casa e este resultado, claro, classificou o club da Região dos Lagos. Este fato, contudo, não aparece com maior importância depois do que ocorreu após o término da partida. O árbitro Francisco Leite Matos, do quadro da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, e seus auxiliares na partida saíram do vestiário cerca de uma hora depois do final do jogo quando foram interpelados por Elias Duba (presidente do Madureira), acompanhado por ‘amigos seus’, que gostaria de cobrar satisfações deles sobre sua atuação na partida, onde Matos expulsou dois jogadores do Madureira (Maicon e Odvan).

Aí a história passa a ter duas versões: Matos diz que Duba e seus amigos o ameaçaram de morte e ele teve que correr e se refugiar pulando o muro de uma casa nas cercanias, enquanto um de seus auxiliares tentava conter os reclamantes e um dos ‘amigos’ sacou de uma arma e atirou em sua direção enquanto este fugia em direção ao vestiário. Este fato foi relatado pelo Presidente do Sindicato dos Árbitros do Rio de Janeiro, Jorge Rabelo. Na versão de Duba, ele apenas foi perguntar a Matos se este sempre apitava mal contra o Madureira em função de um problema pessoal entre os dois, o que não conseguiu pois o árbitro saiu correndo quando iniciaram as conversas além de negar ter havido qualquer disparo de arma de fogo ou mesmo estar acompanhado de seguranças.

Este caso é mais um protagonizado por Duba, dirigente que há anos está no comando do simpático clube do Mercadão fazendo-se uma espécie de Eurico Miranda do subúrbio do Rio. Durante as finais do Estadual deste ano, ele entrou no gramado do Maracanã com seus seguranças e disse alguns impropérios sobre a torcida do Botafogo, rival de então.

O futebol de um modo geral, e do Rio em particular, é afetado negativamente por dirigentes deste tipo, que tentam se impor através da força achando que são eles os donos do espetáculo e que não podem sair perdendo nunca. Há quem diga que isto só ocorreu em um jogo da Série C, tentando minimizar o caso, mas quem não se lembra de Eurico invadindo o campo em São Januário para tentar acabar com o jogo entre o Vasco e o Paraná, da Série A, e intimidar o árbitro Paulo César Oliveira? Neste caso o jogo ainda não havia terminado!

Muito se reclama sobre a postura das torcidas organizadas nas arquibancadas, mas estas apenas refletem o pensamento e o comportamento dos dirigentes de seus clubes, espantando assim os torcedores do bem e fiéis dos estádios.

Sei que a relação entre os torcedores e seus clubes é a de um amor infinito – quantas vezes não se diz que o indivíduo troca de mulher diversas vezes durante a vida (o que não é meu caso), mas nunca troca de time – contudo, deve-se ter noção do que aqueles que representam os clubes fazem em nome de sua paixão.

O Estatuto do Torcedor ou algum outro instrumento legal deveria prever punições para os dirigentes que agem desta forma, manchando ainda mais este esporte que tanto amamos com estas atitudes de coronelismo que não cabem em uma sociedade como a nossa. Futebol é coisa séria, mexe com sentimentos, alegrias e frustrações de pessoas de bem e deveria ser conduzido por pessoas sérias que não tentem se impor.

Até quando teremos que ver Mirandas, Dubas, Pintinhos e seus iguais fazendo este tipo de coisa e manchando ainda mais o nosso futebol?

Vamos deixar a Lei de Gérson de lado!
Alexandre Machado - amsilva88@hotmail.com - 03/08/06

Tradição na camisa, mas não no campo.

O clássico de ontem, envolvendo Fluminense e Botafogo, poderia ter uma dinâmica e uma importância bem maiores do que as relacionadas ao atual momento dos dois times.
Embora distanciados na tabela, ambos têm marcado ponto na competição pela irregularidade: os de General Severiano, na parte baixa e, consequentemente, próxima da temida zona de rebaixamento; os de Laranjeiras, na parte alta, mas sem conseguir ultrapassar os atuais líderes, que também perderam pontos.
Outra questão importante é a de que trata-se do confronto de grandes times mais antigo do Brasil - efeito que, em outros países, provavelmente serviria para uma grande celebração, mas que diante do atual momento do futebol carioca, passou em brancas nuvens. Brancas, não, corrigindo: cinzentísimas. A chuva e o frio foram presença firme no domingo. Somando-se o ingrato horário de 18 horas, por conta da imposição televisiva, mais os percalços que hoje cercam um programa de futebol no estádio, entende-se o baixíssimo público para o jogo, de pouco mais de dez mil pagantes.
O jogo não foi realmente bom. Uma grande quantidade de passes errados marcou a partida, juntamente com um grande número de faltas e cartões amarelos. Ainda no primeiro tempo, a expulsão de Arouca logicamente enfraqueceu o Tricolor; por outro lado, o Botafogo não imprimia velocidade e qualidade suficientes para explorar o fato de ter um jogador a mais. Não seria nem o caso de dizer tratar-se de um jogo morno, pelo frio da temperatura e da pouc movimentação dos jogadores. Uma ou outra defesa, Fernando e Lopes pouco foram exidos - e o bom goleiro alvinegro andou hesitante em alguns momentos.
O segundo tempo não apresentou grandes modificações. As substituições feitas de ambos os lados não causaram efeitos de maior reação nos times. Embora Cuca tenha normalmente mais ousadia do que o comedido Oswaldo de Oliveira, este causou relativa surpresa ao sacar Petkovic - que sabidamente, é um jogador talentosíssimo mas, ultimamente, não tem mostrado regularidade. Mesmo nos dois jogos em que fez grandes gols, como contra Grêmio e São Caetano, Pet não foi regular. A entrada do outro Fernando, irmão de Carlos Alberto, hoje corinthiano, também não causou nenhum grande impacto.
O final não poderia ser mais justo. Ambos irregulares, Botafogo e Fluminense tiveram brevíssimos momentos de supremacia um sobre o outro, mas nada que pudesse justificar vitória. Empate merecido, e que faz pensar: será mesmo o Tricolor candidato ao título? Poderá mesmo o Botafogo reagir e subir na tabela? É o que esperamos; contudo, feito São Tomé, precisamos ver para crer - no caso, um futebol razoável e consistente.
Paulo Roberto Andel - 31/07/06

Wednesday, August 02, 2006

Freguesia? Sim!

Acreditem ou não os mais racionais, a “freguesia” desempenha sim um papel de suma importância no futebol. Este esporte, capaz de unir massas e juntar pessoas de diferentes crenças, valores e classes em nome de um interesse maior, não depende só de talento ou de espírito de equipe. É claro que os fatores citados têm um peso muito forte durante uma partida, mas a sorte também faz parte, assim como a “freguesia”.

Todos nós, amantes do futebol, sabemos o que é isso. Os “racionais” que mencionei na primeira linha sempre me criticaram por não acharem possível a crença em “pé-frio”, “freguês” ou outras superstições que eu e milhares de torcedores pelo mundo temos com relação a estes duelos disputados semanalmente por campeonatos estaduais ou nacionais.

A final da Copa do Brasil 2006 é o principal tema em pauta em todos os veículos de comunicação esportiva do país. Eu, como tricolor fanática e outros mais de 100.000.000 de brasileiros que compõem a maior torcida do mundo (sim, pois a torcida anti - Flamengo é a maior do mundo) estamos insatisfeitos e desgostosos por termos que aturar a algazarra que sucede às conquistas rubro-negras (que seriam menos freqüentes, se os torcedores do clube da Gávea não comemorassem a não-queda para a série B do Campeonato Brasileiro com tanta intensidade, quase todo ano); no entanto, não estamos surpresos justamente pelo fator “freguesia”.

O meu querido clube do coração está “freguês” do Vasco há alguns anos, digo “está” e não “é”, pois quem acompanha futebol há mais tempo sabe que na verdade o freguês nesse confronto é o Vasco, e o gol do Edinho em 80 comprova isso – só um “freguês” toma aquele gol. Por causa da recente estatística desse clássico, o clube de Eurico chegou a final. Na semifinal contra o Fluminense, deu Vasco, e quando os rubro-negros bateram o Ipatinga, a final estava anunciada. E final disputada entre Vasco e Flamengo significa felicidade rubro-negra, aliás, levando-se em consideração o sentimento dos vascaínos pelos flamenguistas, não entendo por que motivo eles se deram ao trabalho de eliminar o Fluminense - que geralmente é o algoz rubro-negro em finais. Os confrontos entre estes dois clubes não são como aqueles entre Fluminense e Vasco. De jeito nenhum. Os últimos jogos entre os clubes das Laranjeiras e de São Januário têm sido inexplicáveis, bolas que em qualquer outro jogo acabariam na rede não entram, o Tricolor domina, briga, corre atrás, e quando massacra, consegue um empate (às vezes com uma ajudazinha de fora, é verdade, como na vez em que o jogo terminou 2x2, o Flu do Renato Gaúcho vencia até os acréscimos, quando um pênalti providencial foi marcado e convertido por Petkovic, então jogador do Vasco).

As finais entre Flamengo e Vasco deixam os rubro-negros rindo à toa, mesmo antes dos jogos. Em 1999, 2000 e 2001, os dois se enfrentaram pela final do campeonato estadual - em todas as ocasiões, o Vasco jogava por um empate. Resultado? Flamengo Tricampeão. Em 2004, a história se repetiu, com direito a linha de passe dentro da área cruzmaltina e gol de Jean. O campeão carioca não tinha um grande time, e o campeonato brasileiro deixou isso claro, dado que o melhor do Rio, mais uma vez, foi o Fluminense. Antes da Copa do Mundo, já eram conhecidos os finalistas, e eu, como tantos outros, já sabia quem estaria na Libertadores 2007...

Ninguém precisava consultar cigana ou vidente pra saber. O Vasco já entrou derrotado. A torcida não vibrou em nenhum momento como vibrou nos jogos contra o Fluminense. A paixão pelo clube sempre leva o torcedor a pensar que é possível, mas mesmo que inconscientemente, os vascaínos já esperavam, e os jogadores também. Levaram golaço de Obina e gol de cabeça de Luizão, dupla que nunca havia marcado no mesmo jogo. Depois do jogo, Renato Gaúcho, que sempre foi um guerreiro e nunca aceitou derrota antes do apito final, sendo que já ganhou campeonato até com a barriga, declarou que o time ia lutar, “poderia até perder”, mas iria tentar. Logo ele, que sempre se recusa a perder.

Depois, veio a segunda disputa. O normal seria ver o time que estava em desvantagem partir pra cima, e buscar um gol o quanto antes para sufocar até o fim. Mas quem ameaçou primeiro foi o Flamengo, que perdeu um gol feito. Logo no começo, aos 16 minutos, Valdir Papel, um reserva que ganhou a oportunidade de iniciar a partida como titular no lugar de Valdiram, foi expulso depois de dar um carrinho em Leonardo Moura. Quem ainda não sabia que ia dar Flamengo na final, percebeu aí. Renato deu um empurrão no jogador expulso enquanto ele se dirigia ao vestiário - o treinador demonstrou que já tinha perdido a cabeça e qualquer esperança. O Flamengo logo depois mostrou que o Vasco é “freguês” e por quê: Juan fez um gol de fora da área com um chute no cantinho. Como já disse, sou tricolor e conheço bem ao Juan, assisti a todos os jogos do Fluminense em 2005, cansei de vê-lo tentando esse chute. Acertou duas vezes, uma pelo estadual 2005, contra o América, na abertura da taça Rio, jogo que terminou 4x0, outra contra o Universidad Católica do Chile, num frangaço do goleiro. O que normalmente acontecia era ou chute fraco no meio do gol, ou chute pra fora. Às vezes batia na zaga, mas o fato é que era quase sempre um ataque perdido. E ainda no primeiro tempo, o torneio estava liquidado e o destino da Colina selado.

Aos vascaínos faltava este vice-campeonato (Até na disputa de maior de todos os vices, o Vasco é vice. O campeão dos vices é o clube da Gávea).

Aos rubro-negros só resta comemorar, mais do que comemoraram quando descobriram que o primeiro finalista do torneio seria o Vasco, já que ao vencerem a sua semifinal, sentiram o gosto do título, mas para levantar a taça teriam que cumprir a mera burocracia de disputar dois jogos, o que não seria nenhum problema, o adversário é “freguês”. Em oito anos, foram cinco títulos. Quanto aos tricolores, botafoguenses, americanos, e ao resto do Brasil, só nos resta aturar as comemorações e nos divertirmos um pouco com o pessoal que vai gritar “rumo a Tóquio”, “O Mengão é o melhor do mundo” etc., até que o calor passe e os rubro-negros voltem a um lugar do qual já são freqüentadores, a Igreja de São Judas Tadeu, onde farão promessas e pedirão para que o santo ajude para que o time dispute a série A do Brasileiro de 2007.
Rita Sussekind, 28/07/2006

Tuesday, August 01, 2006

A nova Seleção de Dunga

Na primeira convocação da nova fase da seleção, tivemos três jogadores de clubes cariocas chamados pelo selecionador (ainda não vou chamar o Dunga de técnico ou treinador, pois não sei se ele se enquadra nestas categorias). Marcelo, Morais e Jônatas são as novas esperanças da torcida carioca para a criação de uma nova mentalidade de dirigentes e jogadores dos clubes daqui da Maravilhosa.

É claro que ainda temos alguns poucos nomes que poderiam estar nesta lista, principalmente Arouca e talvez Leonadro Moura. Porém esta ainda é a primeira de uma série de convocações que irão ocorrer até a olimpíada (em primeiro plano) e/ou a Copa de 2010. Até lá ainda há tempo para que os dirigentes dos clubes onde atuam estes convocados possam vendê-los para fora do estado ou do país e, quem sabe, ficaremos a ver navios.

Marcelo vem aparecendo muito bem na lateral esquerda do Tricolor. É um daqueles casos que, não sabemos porque, o jogador é o reserva na base e depois estoura no time de cima e deixa o antigo titular na saudade. Apresenta um futebol envolvente, faz muitos gols, se apresenta para o jogo e está em um patamar igual ou próximo a Junior, do São Paulo, que deveria ser o escolhido caso não houvesse a Libertadores no caminho.
Após um período em que a própria torcida não o agüentava mais, Jônatas conseguiu reencontrar o bom futebol da época em que Waldemar Lemos o lançou. O interessante é que este futebol só voltou após a volta de Waldemar à Gávea. Deixou de lado a máscara e passou a encarar o futebol com profissionalismo, o que foi excepcional para sua melhora. É, sem sombra de dúvidas, o principal jogador do Flamengo e foi peça-chave na conquista da Copa do Brasil. Como joga em uma posição em que há diversos jogadores em melhor condição deve aproveitar a oportunidade para aprender e melhorar o seu potencial.
A mesma situação vive Morais, meia que vem jogando o que se dizia que ele jogava quando apareceu no Vasco. Porém, destaca-se no clube da Colina mais pela incapacidade de seus companheiros do que por sua qualificação. Deve usar este período na seleção para aprender.

O melhor alento é ver que no Rio ainda há futebol, por mais que alguns queiram negar isso.
Parabéns ao trio e ao Rio.
Alexandre Machado, 01/08/06

Monday, July 31, 2006

Uma vez, Flamengo

Brilhou a estrela da Gávea e o Brasil tem seu novo campeão de Copa.
Há os que discordam da real qualidade dos times vencedores da Copa do Brasil, dado que seria uma competição "menor", permitindo um caminho teoricamente mais fácil para se chegar à disputa da Copa Libertadores, ou que seria esvaziada devido à ausência de times já envolvidos em outros torneios. Permitam-me contrariar esta tese.
Primeiro, nós, tão fanaticamente envolvidos com a chamada competição de "tiro curto", uma vez que a Copa do mundo é nosso fascínio maior, brasileiro, precisamos compreender que o campeão desse tipo de certame é o que não falha - ou melhor, que acerta nos momentos capitais. A bota italiana nos premite aceitar isso melhor, por exemplo. A Copa do Brasil não é menor; pelo contrário, seu sistema não permite erro. O campeão merece os louvores sim, mesmo que seu team não corresponda às melhores expectativas.
O chamado sistema de "mata-mata" permite jogos fáceis? Se os ventos do emparelhamento forem bons, talvez. Contudo, exige-se respeito: não foi à toa que Criciúma, Juventude e Paulista, todos excluídos do panteão das grandes equipes nacionais, já conquistaram o ouro.
Além do mais, qualquer final de campeonato que seja disputada entre dois times de grande história é sinal de disputa difícil, árdua a princípio. Em se tratando de dois rivais seculares como Flamengo e Vasco, pior ainda.
O Flamengo pode não ter o time que toda a massa rubro-negra deseja, certamente. Porém, conquistou o título de forma inconteste: ultrapassou as etapas como manda o figurino da competição e, na fase final, dominou os dois jogos.
Por mais que Renato, o treinador cruzmaltino, tivesse tentado imbuir o Vasco do chamado espírito de luta, os primeiros minutos já denunciaram um time nervosíssimo, perdido, incapaz de trocar três passes e sendo desarmado facilmente pela defesa flamenguista, de forma limpa e sem faltas. A pressão criada pelos dois gols da partida anterior assustou o Vasco.
O penúltimo golpe foi dado com a expulsão justíssima de Valdir O Papel. Suas duas entradas desnecessárias, até grotescas, justificaram os cartões. Com vinte minutos de partida, visivelmente nervoso, jogando mal, precisando tirar uma diferença de dois gols e com um jogador a menos, a tarefa do Vasco faria qualquer um dos doze trabalhos de Hércules parecer piada. Renato irritou-se com o atacante, chegando a empurrá-lo para longe de repórteres e, se não fez a coisa correta (o que bem sabemos), compreende-se: ele, Renato, percebeu que tudo poderia estar perdido a partir de então. E estava certo.
A seguir Ney Franco fez excelente mexida, tirando Toró, que seria um candidato à expulsão, dado que também já havia levado o cartão. Obina entrou e o Flamengo controlou o jogo de vez.
O golpe final veio no terço da partida. O gol de Juan, jogador limitadíssimo mas ocasional bom finalizador, acabou com as esperanças do Vasco, menos pela quase impossibilidade e mais pelo conjunto de revezes criados antes e durante a partida. Dali em diante, a moçada da Gávea administrou a partida sem maiores problemas - as escassas finalizações do Vasco foram sempre distante do gol ou de certos perigos.
A festa é merecida, ainda mais no caso de um club que chegou a várias finais dessa competição em tempos recentes, sem sucesso.
Classificado para a mais importante competição sul-americana, agora cabe ao Flamengo o despertar para o campeonato brasileiro, onde se encontra em posição delicada, e a preparação de um team que faça justiça às cores vermelha e preta perante toda América.
O velho estádio da Gávea tremula em verde e amarelo.
O ponto negativo ocorreu, como em muitas vezes, fora das quatro linhas: meia-dúzia de bobocas malversaram o nome de milhões de rubro-negros em mais uma confusão estapafúrdia entre torcidas que, estanhamente, insistem em ser chamadas de "organizadas".
Todavia, a massa flamenguista, alheia às balbúrdias, merece todos os parabéns pela conquista da louvada Copa.

Friday, July 21, 2006

A eterna homenagem ao Tricolor

Publicado em 21/07/2002, pelo não menos gigante Marcos Caetano


Para ser um gigante

No instante em que escrevo estas palavras, o Fluminense Football Club está completando o seu primeiro centenário. Não são cem anos de regatas, críquete, tênis ou carteado - mas de futebol. O Fluminense é o mais antigo clube de futebol do Rio de Janeiro, um dos mais antigos do Brasil e, indiscutivelmente, o que mais contribuiu para o desenvolvimento do esporte que hoje nos identifica como nação. Ao contrário dos demais grandes clubes cariocas, o Tricolor das Laranjeiras tem o futebol em sua certidão de nascimento e na heráldica de seu escudo.

O Fluminense é daqueles clubes sem os quais as cinco estrelas que a camisa do Brasil exibe hoje talvez nunca tivessem sido bordadas. Não apenas porque cedeu muitos jogadores para a Seleção, mas principalmente porque estabeleceu os paradigmas da administração esportiva no país. Já em 1904, por exemplo, o clube fundado por Oscar Cox inspirou e apoiou a formação das equipes de futebol de Botafogo, Bangu e América, clubes com os quais disputou o primeiro campeonato carioca em 1906. Disputou e venceu.

"O Fluminense nasceu com a vocação da eternidade. Tudo pode passar, mas o Tricolor não passará jamais". O autor desta frase também é eterno. Chama-se Nelson Rodrigues - o maior cronista e dramaturgo brasileiro de todos os tempos. Na avaliação de Nelsinho, seu primogênito, o bardo da Aldeia Campista é o maior troféu da história do Fluminense - e o único que jamais será erguido por outros clubes. É um orgulho saber que o maior tricolor da história não freqüentou gramados nem gabinetes acarpetados, mas construiu sua mística do lado de cá da máquina de escrever. Mas não quero centrar minha escolha da grande glória do clube num indivíduo.

Em meu coração há um recanto especial para um jogo contra o Náutico, pela terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Num Maracanã com arquibancadas interditadas para obras, uma inacreditável multidão de torcedores lotou a geral, quarta-feira à noite, para, sob chuva torrencial, empurrar o time durante a quadra mais difícil de sua existência. Naquele dia eu tive a mais absoluta certeza que o Tricolor jamais desapareceria, nem com três rebaixamentos seguidos, nem com mil anos de crises e gestões desastrosas. Ali eu entendi que não há abismo suficientemente grande para tragar um clube como o Fluminense.

Mas se eu tivesse que escolher apenas um momento para simbolizar a grandeza do clube da rua Álvaro Chaves, eu voltaria no tempo, até 7 de julho de 1912, data em que foi disputado o primeiro Fla x Flu. Com um time formado pelos tricolores campeões invictos de 1911, que deixaram o clube após uma desavença, o Flamengo era a nova sensação do futebol carioca. Do outro lado, o Fluminense encarava a maior ameaça de sua história. Se perdesse - o que seria natural - o futebol no clube correria grande risco de encerrar as atividades. Mas a heróica e renovada equipe tricolor venceu o Fla x Flu - que permanecerá para sempre como o mais importante da história - e salvou o time do desaparecimento.

Para ser um gigante, não fazem falta títulos mirabolantes, equipes inesquecíveis ou milhões de fanáticos torcedores. O Fluminense tem tudo isso, como de resto quase todos os grandes clubes mundo afora. Não é isso que torna o Tricolor diferente dos demais. Para ser um gigante é preciso mostrar valor diante do inimigo invencível e face ao mais profundo dos abismos. Por duas vezes, ao longo de seu primeiro centenário, o Fluminense esteve à beira da aniquilação - e sobreviveu. Foi com tal fidalguia que o clube das três cores que traduzem tradição se tornou uma lenda. Um clube que, quando menor pareceu, aí mesmo foi que provou ser um gigante.

Vice de novo!?

Amigos, existem derrotas fragorosas, eternas, tristes e silenciosas como a bola de Ghiggia batendo no fundo da rede de Barbosa.

Existem, porém, aquelas efêmeras, enganadoras, aquelas que provocam o torpor da auto-suficiência, a certeza de que se chegou ao Olimpo antes do tempo. Quantas vezes já vimos os rojões das comemorações antecipadas virarem os traques da derrota? E da derrota mais amarga, porque inesperada.

Era 1983. Meus 12 anos de idade. Um Fla-Flu na casa de uma tia horrorosamente flamenguista. Rádio de pilha. Tensão. Zero a zero. Chegaram os 44 do segundo tempo. “Vem, Zé, vem ver meu Mengo ser campeão!”. Ela não poderia imaginar o que vinha ali. Tradição. A TV liberava a transmissão aberta dos últimos minutinhos do jogo. Invariavelmente, havia umas listras horizontais que corriam pela tela da TV. Nunca entendi o porquê. Chego resignado à frente da TV. Um tricolor desmunhecado bate uma falta para afrente, por cima, ponta direita, terreno que conheceríamos tempos depois como “Avenida Júnior”. A bola aterrissa nos pés do Assis. Ele entra, entra, ninguém chega... Aí, na cara de um Raul estupefato, dá um peteleco, do lado de seu pé direito. Gol.

Confesso que fiquei uns dois segundos pasmo olhando para a tela. Sonho? Parecia sonho. Não era! GOL! Porra! Gol!!

A história está repleta de campeões antecipados, campeões de véspera, campeões morais – termo ridículo, aliás, cunhado por certo técnico flamenguista - cujo sonho se transformou em pesadelo em 90 minutos. Às vezes em 45. Às vezes em cinco. Três. Um minutinho.

A gasolina do Nigel Mansell acabou. O Assis fez o gol no final. O Brasil empatou, mas o Paulo Rossi fez outro. E faria outro ainda se empatássemos de novo. O Flamengo comemorava o título de campeão carioca de 81 numa noite chuvosa quando o Dinamite marcou, obrigando a aparição do ladrilheiro para resolver um problema que o super time não conseguia resolver sozinho. Ganhar do Vasco do Ticão...

Flamenguistas, parabéns pelo seu título antecipado, conquistado ontem. Foi muito merecido. Não entendi, aliás, por que não entregaram a taça. Por que não houve volta olímpica. Uma vitória tão fragorosa, por tal diferença irrecuperável de gols. Com uma exibição primorosa de todos os setores de seu time, esmagando e humilhando o adversário que, com certeza, já desistiu de tentar. Vocês são melhores! Os dignos campeões que cumprirão a feliz tarefa de apenas humilhar ainda mais os adversários no jogo de entrega das faixas, semana que vem, no Maracanã. Aliás, faixas costumam ser entregues antes das partidas. Portanto, coloquem a faixa de pano no peito. Porque a outra, a do título, vocês já ganharam. Como colocaram a da mesma Copa do Brasil de 2004, cuja final pró-forma vocês haviam ganho por antecipação do Santo André.

Vascaínos, acreditem. Nossos adversários já ganharam o título. Já estamos derrotados. Muito mais derrotados do que no intervalo daquele jogo no Parque Antártica, em 2000. Não há esperança. Conseguimos fazer quatro gols em 45 minutos, na casa do adversário, na final do campeonato, com um homem a menos. Mas essa, essa a gente perdeu. É impossível. Estaremos diante de um esquadrão poderoso, imbatível, dono de um futebol soberbo (isso é verdade!) e cuja vitória já está escrita na nossa sina de perder. Não teremos chance. Pensem bem: como poderá nosso timinho de 11 homens vencer os 11 super-homens de lá, vestindo o manto, empurrados pela nação e ainda fazer dois gols em 90 minutos? Somos uns sonhadores. Acho que devemos desistir. Inscrever na rampa da Uerj “Vós que aqui entrais, perdei toda a esperança”. Pois essa já foi perdida. Somos perdedores.

Derrotados.

Fregueses.

Mas, e se o inesperado acontecer? E se a lógica matemática futebolística furar? E se o campeão vacilar? E se Nossa Senhora das Vitórias nos conceder um de seus milagres?

Não... Impossível.

Parabéns ao campeão Flamengo.

Valei-nos Santo André.
Zeca Tal - 20/07/2006

Thursday, July 20, 2006

A contra-virada

Amigos, é natural que nós, Tricolores com a letra inicial maiúscula justificadamente, tenhamos irritação pelo que aconteceu no jogo de hoje, contra o Grêmio.

Tivemos a vitória na mão e a perdemos por desatenção; dois gols no apagar das luzes, ambos provenientes de perdas de bola no meio de campo, ambos com os finalizadores gremistas à vontade. Fizemos quatro gols no Olímpico Monumental, façanha raríssima para qualquer time brasileiro. Tomamos outros, paciência.

A fidalguia Tricolor, tão praticada pela história e hoje em dia tão bem ressaltada pelo texto de Marcos Caetano, deve entrar em campo e contar a verdadeira história da partida.

Primeiramente, não foi um jogo espetacular como querem fazer crer alguns dos que ocupam espaços da mídia esportiva. Foi sim, um jogo corrido, disputado. Beleza artística não, apenas em certos momentos. Os seis gols no terço final do match ajudam a maquiar tudo. Sim, o gol é a redenção, a independência sem morte; ao gol, tudo é permitido, tudo fica menor diante. Houve grandes gols sim, mas falaremos disso mais à frente.

Volto ao jogo, que não foi divino, do Olimpo. Uma partida até divertida de se acompanhar pela movimentação. Os gremistas tiveram o primeiro tampo na mão; dentro da escala pouco acima da mediocridade, estiveram muito melhor do que nós. Eu não me reconhecia; o Fluminense não se reconhecia lá: era um amontoado, sem atacar, sem organizar, apenas recebendo a esquadrilha sulista de três cores tal como um boxeador em derrota, mas não por nocaute – perdendo pontos, tomando mais e mais jabs.

Quando menos se esperava, imediatamente após termos sofrido o segundo gol gremista, num contra-ataque arrebatador e que poderia ter sacramentado a derrota, eis que tivemos um resquício de reação. Na falha do goleiro gaúcho e o posterior rebote, no meio da confusão, a bola pererecou e entrou. E então, vejam vocês, o futebol é cheio de surpresas e nuances, detalhes e especificações, como se fosse uma mulher charmosa e misteriosa: tudo mudou, significativamente.

Petkovic, nosso craque, que não tem mostrado o melhor de seu talento este ano, tinha falhado clamorosamente no passe que resultou no segundo gol gremista. De repente, fez de tudo: passou, driblou e conseguiu o que almejava há tempos com a camisa sagrada das Laranjeiras – o gol olímpico. Há os que dizem ter havido carga sobre o goleiro, outros defenderam a falha entusiasticamente. Tudo, como já disse, fica muito pequeno diante da grandeza, da magnitude de um gol olímpico – assim, Petkovic foi aos céus. Recuperou-se? No mínimo, deu sinais de que tem lenha para queimar. Um gol definitivo.

Diante da reação inesperada e fantasticamente consagrada no segundo gol, o que poderíamos esperar? Uma virada tsunânica, avassaladora, típica dos cem anos Tricolores, daquelas com as quais estamos mais do que acostumados, é nossa sina. E veio, fulminante, com um peixinho do garoto Marcelo, lateral-esquerdo que passou a flanar no meio-campo durante o decorrer da partida, em conseqüência das substituições. O lateral, jogando no meio, fazendo um gol de cabeça como se fosse um artilheiro maior, um gênio da grande área.

O terço final do jogo reservou as melhores emoções, que os outros dois nem puderam rascunhar. Depois de dois golaços, veio mais um, esfuziante, do mesmo Petkovic, num chute poderoso de duzentas jardas, fazendo com que o goleiro esticasse-se todo em busca do nada, da bola já devidamente endereçada.

Em menos de meia hora, o time outrora esgarçado e esbaforido tinha feições de uma invencível armada. Numa virada fabulosa, restou aos torcedores do Grêmio - senhor do jogo na primeira etapa sem, no entanto, traduzir a superioridade técnica em resultado – a saída das arquibancadas, desistindo do dia, com sofreguidão.

Outra vez, quando menos se esperava, fomos desatentos, não detalhistas, afobados. E entregamos uma vitória que, por boa parte do jogo, não nos caberia. Contudo, já que a mesma se desenhou em nossos marejados olhos, porque não aproveitá-la, saboreá-la? Poderíamos. Deveríamos. Não fizemos, pois.

O jogo não foi tudo o que falaram, creio. Valeu mais pelo finzinho e pela intensidade de emoções.

Porém, a menor parte do tempo da partida nos serve de bom presságio.

Não tivemos nada de fenomenal em nossa atuação pelo conjunto da obra. Todavia, o pequeno solo liderado por Petkovic, em dia de inferno e céu, trouxe-nos ventos de esperança. O campeonato ainda está longe, muito longe. Há muito que fazer e construir.

O pequeno terço de jogo, contudo, nos serviu da prova de que somos capazes, de que podemos galgar posições e que, se soubermos trabalhar na construção, tijolo após tijolo, todos delicadamente cimentados, não será a maior das surpresas caso tenhamos ao final do ano uma bela casa, com uma bela sala, capaz de abrigar o desejado troféu.


Paulo Roberto Andel – 17/07/06

Tuesday, July 18, 2006

No tempo dos pontas

Sempre se discute qual seria o resultado de um hipotético jogo entre a seleção de 70 ou a de 82 e a de 2002, por exemplo. Invariavelmente, chega-se à conclusão de que, por causa do preparo físico e da marcação ferrenha, o time de antanho perderia feio. Esta suposta unanimidade pode lever a um erro crasso.

Vendo a recém-terminada Copa do Mundo pobre em novidades, e já pensando na final do século que se iniciará amanhã, viajei para 1987 e lembrei do meu Vasco favorito, que não durou muito. Basicamente, um campeonato carioca de sonho. Acácio, Paulo Roberto, Donato, Fernando e Mazinho (coitado do Roberto Carlos se fossem contemporâneos...); Dunga, Geovani e Tita; Mauricinho, Roberto e Romário. Com Luis Carlos Martins de banco.

Lembrei desse time porque acredito firmemente que nenhuma dessas seleções da Copa conseguiria suportar um 4-3-3 bem montado, com homens abertos nas duas pontas, aprontando correria para a linha de fundo. Do lado direito, Mauricinho tinha o apoio de Paulo Roberto. Do esquerdo, quem fazia às vezes de ponta era o lateral Mazinho, homem de fôlego invejável, que ia e voltava o jogo inteiro e que, por ter origem no meio campo – Antônio Lopes o deslocou pra lateral, alçando-o de meio campo esforçado a lateral de seleção – sabia como cair pelo meio e bater em gol. E no meio... ah, tínhamos Romário em início de carreira, o homem que com três passos deixava o seu marcador um metro – sem exagero – pra trás. E o gênio Dinamite armando tudo isso.

Pensemos nessa França que triturou nosso super-time e depois desfaleceu na batalha dos pênaltis. Ela não estava absolutamente preparada para encarar ataques profundos em ambas laterais e cobrir homens de frente como Romário e Roberto. Sagnol e Abidal – perdão da palavra, um lateral de merrrda! – ficariam presos à marcação para tentarem segurar as duas pontas. A simples presença desses quatro homens – Mauricinho enfiado na direita, Roberto jogando de ponta de lança da intermediária adversária à entrada de sua área, Romário enfiado entre os beques interiores e as subidas velozes e objetivas de Mazinho, sobrecarregariam os dois homens de proteção – Vieira e Makelele, que teriam de se multiplicar pra cobrir os dois lados do campo, desguarnecendo as subidas de Geovani e Tita. Qual a solução? Tirar Ribery e botar mais um marcador? Prender Zidane na marcação dos homens de meio campo?

Não creio que nenhum time da Copa que passou estivesse apto a encarar tal estilo de jogo apoiado em tal qualidade de jogadores. O meu Vasco seria campeão do mundo!

Parafraseando Gentil Cardoso, lanço então meu ponto: dêem-me dois bons pontas, os de nem tão antigamente assim, e ganho qualquer campeonato!

Zeca Tal – 17/07/06
zecatal@tribo12.com.br

Fé na vida, fé no jogo

Persistência, amigos, persistência.

A vida é um jogo. Ela só acaba quando termina.

Quarenta e cinco minutos do segundo tempo, mais acréscimos. Fé.

O Maracanã da minha adolescência quase sempre tinha dois grandes amigos vascaínos comigo. Minutos finais de derrotas significavam invariavelmente solidão. Fugiam. Não queriam ver o fim. Abandonavam a vida, a realidade às vezes dura dos fatos em busca de uma fuga inútil. Bons amigos, mas avestruzes da bola.

Acho que o Maracanã tem esse quê de divã. Invariavelmente, aqueles que persistem num jogo, que acreditam até o final, persistem também no seu dia-a-dia. Não vão abandonar a luta antes de ter seu fim decretado. Não vão deixar de acreditar no seu time, ou quando muito, estarão ali para exercerem os seus papéis de críticos e consumidores enganados e xingarem, urrarem a plenos pulmões contra os pernas-de-pau que ousam vestir a camisa de seu clube. Não vão abandonar o problema e fugir dele, mas sim tentar resolver.

Vencer.

Felizmente nunca passei pela tenebrosa experiência de ouvir um gol do meu time, o do empate inacreditável, o da derrota vendida caro, na rampa do Bellini. Os jogos a que fui, assisti-os todos. Testemunhei tudo. Nada pude fazer por eles (não sou ladrilheiro...). Berrei. Xinguei mães. Mas vivi. Cumpri meu papel. Acreditei.

Meus amigos perderam, num Vasco e Bangu, se não me engano em 1984, uma das faltas mais fantásticas que vi Roberto Dinamite bater. Empate, aos 45 do 2º tempo. Inesquecível. Felicidade quase plena. Um pouco de tristeza por estar só, sem os dois. Quase vinte anos depois, encontro um dos dois na arquibancada, ano passado. Ironia: a história se repetiu. Gol no finalzinho e o empate. Ele novamente não viu.

Metáfora... na hora dos problemas, da dureza, da dificuldade, poucos ficarão. Mas esses segurarão a barra com você. E comemorarão as vitórias mais sofridas, suadas, eternas. Outros estarão na rampa. Ou terão apagado a televisão. Ou fecharão os olhos pra não ver o Baggio bater o pênalti...e perder. Aquele segundo passará, esteja você perto de mim, ou não, vendo ou não.

E você será um vencedor.

Ou não.


Zeca Tal – 17/07/06

zecatal@tribo12.com.br

Friday, July 14, 2006

Grand Finale!

Sim, eu imagino, com toda a razão teremos nos próximos dias muitos torcedores vociferando contra Vasco e Flamengo. Ambos, em suas reestréias, foram verdadeiros fiascos no campeonato nacional, goleados que foram por Palmeiras e Paraná, respectivamente.

Para piorar, o clássico dos milhões terá edição no próximo domingo, no início da noite fria. A expectativa de público é, naturalmente, das piores.

Até aí, não há como dar louros ao match. Contudo, três dias depois, o jogo terá nova repetição, e esta é para valer: tratar-se-á da primeira partida da final da Copa do Brasil e que, além do título em jogo, fornecerá uma vaga para a Copa Libertadores de 2007.

E com isso, amigos, tudo muda. Tudo.

O Maracanã não estará lotado até a última gota do garrafão, feito os tempos de Zico e Roberto, mas terá todos os seus lugares ocupados.

É a volta das torcidas, com suas cores e cânticos, em raro show de beleza que só os freqüentadores das arenas futebolísticas podem entender.

Sabemos que o futebol carioca não tem honrado a tradição de conquistas e supremacia nacional. O esvaziamento da cidade repercutiu nos clubes, e tivemos tempos muito difíceis, que ainda vão perdurar com seus rescaldos. Em termos nacionais, tivemos rebaixamentos, muitas ameaças e escassos títulos nos últimos dez anos.

A confusão administrativa dos clubes levou as equipes à penúria, salvo momentos pontuais.

Porém, tudo vai ficar de lado entre as duas próximas quartas-feiras. É decisão. É título em jogo, título nacional disputado por duas agremiações cariocas.

Em campo, não há mais os craques do Flamengo dos anos oitenta, e nem os do Vasco dos anos noventa. Mas a mística do clássico é inabalável e há de perdurar por duzentas mil primaveras.

Nelson Rodrigues, o maior tricolor de todos os tempos, certa vez escreveu que haveria um dia em que a camisa do Flamengo poderia jogar sozinha, sem um time. Creio que isso também valha para o Vasco.

Não importam os dirigentes nefastos, nem os maus resultados recentes, mesmo as campanhas não convincentes dos últimos anos. Deixemos de lado a má fase.
É hora de festa, de alegria, de estádio colorido e de dois jogos que, se não forem capazes de exibir no campo o brilho de outrora, certamente escreverão mais um capítulo da história que é feita para não ter fim, a história de mais uma decisão importante envolvendo duas biografias centenárias; duas camisas inesquecíveis; duas paixões populares que imaginam-se digladiando permanentemente mas que, na verdade, são pura simbiose.

A Colina encara a Gávea. Vejamos o que virá.

Paulo Roberto Andel - 14/07/06

Wednesday, July 12, 2006

Rescaldos

Agora, esfriados os ânimos e já com a volta do campeonato brasileiro devidamente encaminhada, talvez ainda caibam pequenas observações sobre o assunto que tomou o Brasil como uma verdadeira obsessão, a de sempre: Copa do Mundo.
Sempre deixo claro que minha empolgação é o Maracanã, é São Januário, é Bariri. Aqui, em nossa vizinhança, é que são germinadas diariamente as sementes da paixão que chamamos de futebol.
Nos últimos dias, como sempre acontece toda vez que nossa impecável condição de melhores do mundo tem risco de ser arranhada, muitos vociferaram pelos quatro cantos. O fim de Ronaldo. A lenda de Ronaldinho. A falta de raça. Garra. Fibra.
Se passássemos pelos franceses, teríamos honrado as chuteiras da pátria, vingado o trágico fim de 1998, "trágico" para nós e merecidíssimo para eles.
Uma tremenda bobagem.
A espetacular seleção de 1982 - que, a meu ver, desde que nasci, foi a maior favorita de todas, junto com esta de 2006 - tinha um talento extraordinário, uma disposição impecável e ficou pelo mesmo meio de caminho. Nosso time era quase impecável, mesmo tendo soluçado contra União Soviética e Escócia na mesma competição. A Itália era desdenhada por nossa imprensa...um time com titulares do quilate de Zoff, Scirea, Cabrini, Tardelli, Conti, Altobelli e, sim, Paolo Rossi. Jogamos mal; se mal não foi, ao menos pior do que eles, os ítalos. Foram superiores e venceram. Nós, brasileiros, não soubemos e nem sabemos admitir a inferioridade pontual no futebol - pontual sim, pois no longo prazo somos imbatíveis no conjunto da obra. Chegaram a cogitar que o Júnior, craque da pelota, havia falhado em não ter jogado seu próprio corpo para dentro do gol na hora em que Rossi finalizou o terceiro gol, afim de causar impedimento. Quem puder, reveja o tape do gol e constante o absurdo que propuseram como causa da nossa, digamos, saída antecipada.
Não tínhamos a seleção dos sonhos em 1986, mas a partida que selou nossa eliminação foi de nosso amplo domínio. Os franceses arrastavam-se na prorrogação, frente o sol equatorial do México. Pênaltis, babau! Jogamos melhor e demos adeus.
Na Copa da Itália, conseguimos jogar três partidas horríveis, recorde na história da Nazionale brasileira, creio. Veio a única em que jogamos bem, três bolas na trave, o diabo, um toque de craque Maradona nos despejou.
A decisão de 1998, por mais que problemas extra-campo tenham influenciado, revela um fato constrangedor: jogamos pessimamente. E três gols foram pouco.
Pelo meio do caminho, ora ganhamos o mundo, ora perdemos. É do jogo, é do futebol, o esporte mais apaixonante da Terra justamente porque nem sempre o melhor vence. Há uma parcela do imponderável, como se o velho Sobrenatural de Almeida, de Nelson, a cada quatro anos buscasse novos ares.
O mesmo Parreira, hoje fuzilado, foi o sóbrio campeão de 1994. Errou? Sim, todos erramos. Contudo, na partida contra o time de Zidane, fez o que todos queriam - todo o povo, toda a imprensa, até mesmo boa parte dos jogadores. Ronaldinho na frente, Juninho na armação. Era o que esperávamos dar certo, mas não deu: foi um desastre. Uma equipe com tantos jogadores de categoria sem conseguir trocar três passes com precisão.
Há momentos em que me pergunto: por que não somos capazes de admitir que falhamos no futebol?
Nosso mérito eterno não se arranha por isso. Os maiores vencedores souberam, um dia, tirar proveitosas lições dos revezes.
Os ítalos, vitoriosos, merecem os louros. E nós, aos poucos, reconstruiremos o caminho para nova volta ao pódio em 2010, que é nosso lugar e onde todos no mundo esperam nos ver.
Enquanto isso, voltemos ao nosso Maracanã, ao nosso futebol que foi construído com alicerces dignos, capazes de nos firmar em todo e qualquer pantheon do esporte bretão.
Mal posso esperar pelo jornal da madrugada, e conferir os gols da rodada.
Paulo Roberto Andel - 12/07/06

Tuesday, July 04, 2006

Rodada dupla!

Semifinais da Taça Rio – 2006, Maracanã, lá estava eu no meio da torcida do América, que fazia a primeira partida contra o Americano de Campos.

Segunda partida iniciada, Madureira x Cabofriense, de repente me lembro das rodadas duplas do meio de semana, envolvendo dois grandes contra dois pequenos do Campeonato Carioca, ou ainda dos domingos de clássicos com a preliminar de juvenis.

Lembro inclusive da presença maciça da torcida nas preliminares, para ver os futuros craques, visto que naquela época, tínhamos a certeza de que estes estariam, certamente, entre os profissionais de seus respectivos clubes e não exportados ou cedidos aos rivais através de transações estranhas entre empresários e cartolas, mas isso é outro papo.

Nas rodadas de meio de semana, geralmente envolvendo dois grandes e dois pequenos, podia-se presenciar as duas torcidas dos grandes colocadas como nos clássicos e torcendo pelo pequeno que jogava contra o arqui-rival. Era um secando o outro e isso até empolgava os pequenos.

Nos anos 70, estudava na Escola Técnica Federal, hoje CEFET-RJ e às vezes, junto com um grupo de amigos de classe, matava aquelas aulas necessárias para ir ao Maraca, de Geral, torcer e secar. Era divertido, o prazer podia ser duplamente sentido, uma festa de torcidas, bastante engrossada pela neutra, a dos outros grandes que iam torcer contra os dois protagonistas da noite.

Trocar de posição após o intervalo para ver melhor os gols, correr pelo túnel da Geral, outras travessuras dignas dos dezesseis, dezessete anos de idade.

Certa vez, eu, tricolor, e um amigo, botafoguense, fomos assistir a um jogo entre Vasco e Bahia pelo Brasileiro, de Geral é claro, só pra secar o Vasco e quando o Bahia marcou aos 45 do segundo, o gol que lhe daria a vitória sobre o clube da colina por 1 x 0, não nos contivemos e pulamos sozinhos e imediatamente corremos de alguns torcedores do Vasco pelo túnel adentro até a saída do estádio. Até hoje não sei quantos eram, pois não tive tempo de olhar pra trás. Bem, a Geral mereceria um capítulo exclusivo.

Voltando às rodadas duplas, me pergunto hoje: porque não se tentar novamente? Porque não a volta das preliminares de juniores? Não seria bom até mesmo para o torcedor conhecer melhor alguns de seus futuros ídolos? Hoje, mal sabemos quem são os campeões das várias categorias de base.

Também conheceríamos melhor os times dos clubes chamados pequenos e ver suas pequenas, mas animadas torcidas, pois elas existem e se renovam, como a do Madureira, que vimos na última Taça Rio, além é claro, de a cada rodada, termos o encontro das torcidas dos chamados grandes e rivais
.
Quem sabe, por se verem mais, não se tornassem menos violentas entre si, como nesses tempos de Geral e de rodadas duplas? Quem sabe?


Jocemar de S. Barros. RJ, 28/06/2006

Fenomenal!

A Copa do Mundo começa e as atenções de todo o planeta se voltam para as trinta e duas seleções relacionadas e para seus jogadores, em especial os chamados craques.

No scratch canarinho, o quase sempre favorito de todos os que acompanham o futebol pelo mundo afora e de todas as bolsas de apostas dos grandes centros, destacam-se vários jogadores dignos de serem apontados como craques e há quatro Copas do Mundo, incluindo esta, destaca-se um em especial, sempre muito discutido e protagonista de eternas discussões e análises muitas das vezes injustas e precipitadas.

Cercado sempre de grande expectativa em torno de suas prováveis atuações no Mundial e envolto algumas vezes em controvérsias, normalmente originadas fora dos gramados, Ronaldo Fenômeno, ex-Ronaldinho, é prato cheio para a imprensa e mídia em geral.

Problemas extra-campo à parte, o que se cobrar ou reclamar do cara? Senão, atentemos para breve histórico de sua meteórica, vitoriosa e surpreendente carreira.

Aos dezesseis anos de idade, recém levado ao Cruzeiro de Belo Horizonte, vindo do modesto São Cristóvão do Rio de Janeiro, o garoto de Bento Ribeiro, subúrbio da Central, no Rio de Janeiro, começa a aparecer nos gols do Fantástico, iniciando a coleção de pinturas de sua artística carreira de goleador nato.

Num desses domingos de gols do Campeonato Brasileiro, um em especial chama a atenção do país inteiro, quando o garoto, se fingindo de morto, como quem bate uma carteira, rouba a bola do experiente goleiro Rodolfo Rodriguez, que a soltara na pequena área após uma defesa e antes de recolocá-la em jogo, teve tempo apenas de ouvir a torcida da Raposa Mineira comemorando o gol. O garoto corria para a galera com aquele sorrido de moleque, aquela cara de garoto quando comemora uma travessura. Não era a comemoração simples de um gol, como vemos normalmente. Jamais esqueci dessa cena.

Pouco tempo depois, o menino estava na Holanda, no PSV e lá continuou marcando seus golzinhos. Depois Espanha, no Barcelona, Itália, na Internazionale de Milão e de novo na Espanha, no Real Madrid. Carreira vitoriosa, sem dúvida! Ídolo por onde passou, Ronaldo continua fazendo escola entre os meninos de todo o mundo. Todos sonham em ser um Ronaldinho.

Sua história, envergando a não menos vitoriosa camisa da seleção brasileira, é indiscutivelmente fantástica e apresenta números surpreendentes. Aos dezessete anos, em 1994, é convocado para sua primeira Copa do Mundo, onde assiste aos jogos no banco de reservas, ainda deslumbrado talvez, por participar do mesmo grupo de seus prováveis ídolos como Romário e Bebeto. Não joga, é verdade, mas quem sabe não tenha sido levado como uma espécie de amuleto, por indicação do próprio Zagalo, o então Coordenador Técnico da Seleção, para quem sabe, repetir o feito de um outro gênio, o maior de todos, Pelé, que em 58 também tinha a mesma idade. Quem sabe?

Como todos sabem, Zagalo é muito supersticioso e não perderia essa chance. Poderia também Ronaldinho, numa necessidade circunstancial durante a Copa, entrar e bater outra carteira de algum goleiro desatento. Na verdade, sua convocação foi um prêmio por suas atuações e gols espetaculares já marcados.

No final, Brasil tetracampeão, título esperado por vinte e quatro anos de angústia e seguidas decepções. O amuleto começava a funcionar!

Em 1998, Ronaldinho, com 21 anos de idade e já eleito duas vezes melhor jogador do mundo pela imprensa européia especializada, é a maior estrela da Copa na França. Agora, carregando toda a pressão e o desejo de todos os brasileiros pela conquista do Penta, tem grande desempenho, sendo o artilheiro do Brasil, que chega novamente à final contra os donos da casa, dia em que não se sente bem antes do jogo e tem sua escalação ameaçada. Mesmo assim, entra em campo, mas como todo o time, não está no melhor dos seus dias e a França é Campeã. Tudo muito estranho para todos até hoje.

Antes da Copa da Coréia e Japão, 2002, o craque sofre contusões que primeiramente leva-o à cirurgia do joelho, afastando-o dos gramados por longo tempo e na volta, nova contusão no mesmo local, numa cena vista e comentada por todo o mundo, por suas imagens chocantes e a grande dúvida que deixava no ar. Voltará a jogar futebol? E se voltar, ainda será o mesmo? O mundo se perguntava sobre o futuro do maior jogador em atividade então.

Após muita determinação, Ronaldinho é preparado para a Copa e sob suspeita de quase todos, inicia sua retomada e com ele no comando, com sua força e com seus gols, conquistamos o tão sonhado Penta. Ronaldo encanta o mundo com seu talento, força e irreverência (lança o corte de cabelo Cascão, imitado imediatamente por garotos de toda parte), é o maior jogador da Copa e artilheiro da competição, além de marcar os dois gols na final contra os alemães.

Agora em 2006, Copa na Alemanha, a terceira da história neste país, Ronaldo, 29 anos, que já não necessitaria provar mais nada pra ninguém, considerando-se seu histórico de conquistas, tem outra contusão de menor gravidade um pouco antes da convocação final para sua quarta Copa, engorda uns quilinhos, que somados a outros episódios envolvendo sua vida pessoal durante o período entre - copas, lhe custa uma perseguição implacável de todos, transformando-o em alvo de piadas e novamente do questionamento sobre seu provável desempenho.

Enfim, começa a Copa do Mundo e aos poucos, driblando alguns adversários e toda a pressão em cima de seus ombros, o gordinho vai afinando, driblando mais adversários e fazendo os gols tão esperados e após o quarto jogo da seleção, com três gols assinalados, já é nosso artilheiro e segundo na competição, além de bater o record até então pertencente ao alemão Müller, de maior artilheiro da história das Copas. Será que algum dia ainda disputará um Campeonato Carioca (de preferência com a camisa do meu clube)? Seria a realização do sonho de qualquer torcedor, não acham?

Parece-me, definitivamente, que ainda é o melhor na posição e que teremos de torcer muito por ele, se pensamos em trazer o Hexa e pra encurtar a conversa, sem mais dados estatísticos, como artilharia em eliminatórias, outras conquistas como Copa América, etc, deixo aqui a pergunta: é fenomenal ou não é?

Jocemar de Souza Barros. RJ, 28/06/2006.

Wednesday, June 21, 2006

O torneio dos campeões

Agora que estamos aqui todos parados, alguns de coração na mão por causa da pátria de chuteiras, veio em mente uma outra época de Copa.

Houve um tempo em que os homens do futebol decidiram não paralisar o calendário daqui por causa do campeonato mundial de seleções. Para ser mais exato, ano de 1982. Eu era um garoto, mal tinha catorze anos e adorei.

A temporada tinha sido fechada com a brilhante conquista do bicampeonato brasileiro do Flamengo, em maio. Era um tempo em que quase a totalidade dos jogadores da seleção brasileira era composta por aqueles que atuavam em times brasileiros, ao contrário de hoje. Então, criaram o Torneio dos Campeões. Não lembro quais foram os critérios de convite para o certame, sim das equipes: as do Rio, São Paulo, Minas, Rio Grande. O objetivo era manter os times em atividade e conseguir alguma renda, já que não havia patrocínio nas camisas e transmissão pela televisão como hoje. Não tinha nem celular, ora: bastava orelhão com fichas.

Como era permitido jogar bola na geral do Maracanã, isso mesmo, levávamos uma dente-de-leite e fazíamos nossa própria preliminar, a turma do colégio da praia, Cícero Penna: eu, Chico, Luiz Cláudio, Cassiano, Bolaman, outros. Era “golzinho”, traves marcadas com embalagens de leitinho CCPL vendido por lá. A volta era de metrô, que ia até Botafogo; então, pegávamos o tal “integração”, que circulava por Copacabana e era chamado de “Mengão”, prateado com duas listras, vermelha e preta. Importante frisar que o ingresso era baratíssimo, quase o equivalente a uma passagem de ônibus da época. Tinha tricolor no jogo do Vasco, botafoguense torcendo pelo América; nem se podia cogitar que houvesse briga entra amigos por que um torcia para o time diferente do outro.

Estabeleci meu recorde de todos os tempos: fui ao estádio de domingo a domingo, sete jogos em sete dias, coisa que nunca mais vai acontecer.

Acharam que o Torneio dos Campeões ia ser um fiasco, abafado que seria pelos jogos da maravilhosa Seleção; como é sabido por todos, a Itália fechou nosso caminho e o então fiasco passou a ser nossa única diversão de jogo de bola.

Meu Tricolor foi mal; teve até enterro de dirigente no estádio, promovido pelo Seu Armando da Young-Flu, sábado à noite, Fluminense e Corinthians. O protesto deu certo: um ano depois, nosso supertime deu as caras e fomos tricampeões à frente.

O grande campeão? América, claro.
Pra você ver como eram as coisas de antigamente.
(Paulo Roberto Andel, 06/21/06)

Thursday, June 08, 2006

A Copa e o Maracanã

Hoje em dia, tudo corre com espantosa velocidade. Daí que os tempos e as gentes sofrem constantes translações. Com o futebol, também é assim.

Mais uma Copa do Mundo se aproxima. O Brasil fica estático, parado, hipnotizado pelas televisões e ondas de rádios. Tudo fica pequeno diante da suposta magnitude do evento, onde os melhores jogadores do mundo podem ou não desfilar seus melhores repertórios. Nelson, vivo fosse, enalteceria a “pátria de chuteiras” incessantemente.

E eu me sinto um completo estrangeiro neste assunto.

O futebol é meu oxigênio. Parreira, o treinador, um dos símbolos do clube que ostento na parte de dentro do peito. A Copa, o espetáculo maior. Evidentemente, gostarei da vitória, do sexto título mundial caso venha. É um momento de folga para um país tão sofrido e tão injusto para com seu povo.

Agora, quarenta dias sem Maracanã? Sem o Tricolor? A estrela, a cruz, o grande aliado?

Minha grande emoção em Copa do Mundo foi em 1986, tristeza não teve fim. Em 1982, o país chorou e eu fui com a petizada jogar bola na Lagoa. O time era tão bom que eu, ingenuamente pensei que ganharia facilmente quatro anos depois. Ledo engano. Nós, garotos, nunca temos a noção exata do nunca mais. Aquela confusão toda, os pênaltis, eu olhei para a tela e só então me veio o pensamento de quatro anos antes. Fui enganado por mim mesmo; achei que teria jeito e não teve, passou em branco para sempre. Foi a única vez que chorei por causa da nazionale. Dali em diante, resolvi que minha vida de bola focou-se para o Tricolor e seus aliados (não adversários, já que fazem parte do match). Esfriei. Encarei com naturalidade a derrota para Caniggia e Maradona; só não gargalhei porque, a meu lado, o velho Xuru rosnava sem fim. Na Copa da França, senti-me incomodado por aquele clima de certeza que os franceses tiveram na final; assisti a tudo com tranqüilidade, não me abalei.

A vitória de 2002 também não me falou ao coração. Achava o treinador um digno de pena que deu certo, foi bom pelo Ronaldo, ótimo rapaz. Não sei dizer o que acontece comigo ao certo: talvez porque os jogadores da seleção estejam longe do combalido futebol carioca; talvez em função de que esse negócio de seleção ficou muito além dos conceitos de popstar.

Em 1994, eu não tinha televisão em casa, e fui um dos únicos brasileiros a não assistir a peleja contra a Azzurra de Roberto Baggio. Pode?

É bom e desejável que a amarelinha borde sua sexta estrela. Torcerei, como milhões.

Agora, que não troco um bom clássico de Maracanã por nenhuma Copa do Mundo, é mais do que fato.

Clube é diferente de seleção. A seleção é uma circunstância, um momento. Bonito? Empolgante? Sim. Momento, de qualquer forma.

Quando, desgraçadamente, a seleção é eliminada, fica um clima de velório no Brazyl por uns dois ou três dias, o treinador é amaldiçoado, algum jogador é crucificado e, com pouca ampulheta, volta-se tudo ao normal. Seleção de novo? Só uns seis meses depois. O clube não, ele está em nossas vidas o tempo todo, todo instante. Você vai ao bar, tem o sujeito do outro time, ou você gritam ou se confraternizam. É quarta e domingo, é sábado de carnaval e até quase o Natal. Traduzindo e abusando do comportamento dos jovens, a seleção é uma “ficada”; clube é amor eterno, de casamento e vida feliz até mesmo nas derrotas.

Mais: quando a seleção vence, quem é que você buzina sacaneando na rua? Não tem o vizinho chato, o porteiro vibrante ou o padeiro quase sempre cruzmaltino. É todo mundo do mesmo lado. Vira unanimidade, celeiro de burrice definido pelo próprio e brilhante Nelson. Além do mais, somos fanáticos por futebol, mas nem um pouco nacionalistas – o espasmo do grito de gol não nos credencia suficientemente para tal comportamento.

Como última bala perdida, meu melhor estádio de futebol é o palco da pior derrota da seleção em todos os tempos.

De toda forma, boa sorte aos canarinhos, que não voem como os do tempo de Júnior.

Agora, para ver o fogo pegar circo, tem que ser futebol em Maracanã, com duas metades de cores e gritos diferentes. É disso que precisamos, é isso que a gente ama. A amarela é só um reflexo tênue desse amor.


Paulo Roberto Andel - 07/06/06







Friday, June 02, 2006

Domingo é dia de Fla-Flu!

Dia de luz, festa do sol! Já dizia a canção, clássico da bossa nova.

Ainda trago na memória, lá dos tempos da bossa nova, as tardes de domingo de sol e Fla-Flu. Lembro de certo alvoroço, de meu pai agitado, ouvindo o jogo pelo rádio da vitrola com meu avô e eu tentando entender e já começando a definir minhas cores de coração e como canta hoje a torcida tricolor no Maracanã: “A minha vida, a minha alma, o meu amor...”.

O Fla-Flu começa na semana anterior, quando termina a última partida. A semana que antecede ao clássico é recheada de comentários, dúvidas sobre escalações, especulações, frios na barriga, prognósticos e provocações. Nada mudou de lá pra cá. É como diz o locutor: “Lobo não come lobo”. A cidade fica mais elétrica do que já é normalmente, mais colorida.

É verdade que já tivemos tempos melhores, jogos mais técnicos, público maior no estádio, hoje reduzido em função de vários aspectos como violência, indefinição de horários e calendários, além da situação financeira da população. Mas Fla-Flu é Fla-Flu, sempre cercado de muita mística, superstições, polêmicas, emoções e tudo mais. O fim de semana do torcedor tricolor e rubro negro depende única e exclusivamente do resultado da peleja e já começa com o desfile de camisas no sábado, as provocações são sentidas nas ruas, nos bares, nos shoppings, nos supermercados, nas feiras de domingo, nos parques, em toda cidade. Eu, particularmente durmo e acordo pensando no jogo, é um compromisso inadiável para a tarde de domingo, sofrer com cada lance, ter dor de barriga, roer unhas.

Hoje, com a idade mais avançada e o coração mais cansado, prefiro ir ao Estádio e não sofrer com a narração pelo rádio, onde o sofrimento é ainda maior. Lembro das narrações do Jorge Cury e do Doalcey Camargo; eram de tirar o fôlego e fazer o coração disparar a cada lance de perigo. Nos Fla-Flus, não agüentava ouvir um gol do Flamengo narrado pelo Jorge Cury, pois ele gritava uns três minutos e eu abaixava o volume do rádio e já no gol do tricolor eu me vingava pois sabia de seu sofrimento. Do Doalcey, lembro do suspense para narrar o desfecho da jogada: Disparooouuu...gol!

Que angústia!

Saudosos locutores! Saudosos tempos!

São incomparáveis a beleza e emoção da festa no estádio. Lá a gente grita, xinga, canta, pula, sofre, chora, comenta o jogo com o cara do lado, que nunca vimos mais gordo, nos abraçamos na hora do gol, reclamamos do juiz a cada lance polêmico.

Ontem, no intervalo, o Flu vencia por um a zero e no banheiro, em pleno ato público/fisiológico de urinar, um verdadeiro debate sobre as falhas do time e possíveis substituições a serem feitas, discussões táticas e outras cositas mais. O juiz é sempre lembrado, é claro! Aquela cervejinha ajuda a relaxar um pouco, o segundo tempo sempre promete, um biscoito de vento cai bem, um Geneal também.

O Fla-Flu pode nem ser maravilhoso tecnicamente, como o de ontem, por exemplo, mas sempre movimentado e polêmico. Ontem, tivemos o lance da bola que saiu(?) na cobrança de escanteio, segundo o bandeirinha, que anulou o suposto gol do Flamengo. Castigo! Foi cobrado por um ex-tricolor e tinha que sair mesmo. Ouvi um comentário de um botafoguense pai de um amigo tricolor, ambos presentes ao Estádio, que antes mesmo da cobrança do tiro de canto já havia sacramentado: a bola vai fazer a curva e sair, pois vai ser alçada por um canhoto e está posicionada no canto externo da marca de cal. Comentário tecnicamente perfeito, digno de um torcedor atento, que bem poderia ser tricolor. Pra mim já vale, não foi gol e pronto!

O jogo era nervoso e o Flu ainda teve um jogador expulso no início do segundo tempo ficando a coisa ainda mais complicada. A emoção foi até o apito final do árbitro decretando a vitória tricolor. Não poderia ser diferente; era Fla-Flu.

Ao final, eu, meu irmão mais novo e meu pai, o grande responsável por essa paixão ainda juvenil e quase irresponsável que trago no peito, nos abraçamos e comemoramos a vitória sobre o arqui-rival, cantando o hino junto à torcida na saída pela rampa de acesso da UERJ. Olhava meu pai, hoje de cabeça branca, já dispensado do pagamento do ingresso e me lembrava de quantos jogos já estivemos juntos ali, tomados daquela mesma emoção, da emoção que não envelhece.

Meu pai sentenciou então: O meu fim de semana foi feliz! Faltava a vitória do tricolor!

Viva o futebol! Viva o futebol carioca! Viva o Fla-Flu!


Jocemar de Souza Barros.
29/05/06

Monday, May 22, 2006

A cabeçada merecida

O Tricolor voltou a campo no fim da tarde de ontem.

Um outono discreto, com certo frio e céu cinzento, sobressaltado pela desclassificação de quarta-feira passada. Sim, nós, Tricolores, ainda estávamos – e estamos – com o gosto do fel por desperdiçarmos outra chance de ir às Américas, chance esta que parecia tão cristalina e que sucumbiu perante a força da Colina. Tínhamos mais do que time para lá chegar; faltou-nos, creio, maior vigor para a conquista da vaga para a final do certame.

Tudo isso tem sua carga de curiosidade e, cada vez mais, contra boa parte da mídia esportiva calhorda. Explica-se: dia desses, nosso Tricolor era basicamente o João Bafo-de-Onça do futebol brasileiro, o grande vilão, o responsável por todas as mazelas. Caímos para a terceira divisão com três derrotas, três! Quem será capaz de explicar tamanho descalabro? Por isso, nós, que ajudamos em muito a sedimentar as cinco conquistas mundiais da seleção brasileira, que estreou em nosso estádio e com nosso goleiro, passamos a sofrer todo tipo de achaque. Fomos ao inferno e voltamos. Nos últimos seis anos, nossas campanhas têm sido marcadas por quase conquistar muitos títulos, passando sempre na beira do quase; assim, a torcida do Tricolor, que exasperava-se com a possibilidade do fim do time há poucos instantes, hoje revolta-se com a não conquista de títulos. O amigo Marcos Caetano deixa sempre claro em texto: nós, tricolores, já ultrapassamos o estágio onde se precisa conquistar títulos. Certamente são desejáveis; entretanto, somos das Laranjeiras – nós criamos tudo o que de bom aí está e, dessa feita, estamos acima de troféus, dado que já os temos aos montes.

De qualquer forma, é natural que a torcida tenha seu momento de tristeza. Contávamos com a vaga e deixamos que ela pudesse escapar entre os dedos. Em virtude disso, menos de cinco mil tricolores adentraram Maracanã ontem para prestigiar o match contra o Santos, que não é mais o de Pelé e sim o de Luxemburgo, com seus ternos e gritos.

Éramos poucos e fazíamos algum barulho. Se querem saber sobre o jogo, diria que foi equilibrado e fraco, bem fraco. Nós entramos sob a égide do desânimo, do cansaço psicológico. O Fluminense pode e deve disputar todos os títulos que possam surgir pelo caminho; ao ficarmos frustrados com a derrota do meio de semana, nosso jogo ontem não foi o que espera. Talvez o Santos tenha sido melhor em maior parte do tempo, dirão os velhos idiotas da objetividade consagrados por Nelson. E daí? Nós fuzilamos o Vasco no primeiro empate, um show de bolas na trave; na segunda partida, em nosso único descuido, carregamos a cruz de Edílson. Na terceira, após um rápido empate ao voltar do intervalo, contando ainda com a trave salvadora que confirmou a cobrança de Petkovic, faltou-nos a força que sobra-nos em papel. Por que teríamos ainda que amargar mais azar depois de quarta? O que justificaria outro revés ontem, em nossa casa? Nada.

Os deuses do improvável jogaram seus aromas em nosso campo; melhor dizendo, na cabeça coroada do zagueiro Luiz Alberto, que nos proporcionou o golaço que não conseguíamos fazer há tempos. Não importa que tenhamos jogado mal, não interessa o diminuto público: nós merecemos vencer sempre e, se isso deixa de acontecer seguidamente, feito quando enfrentamos o Vasco, o adversário seguinte merece queimar no inferno da derrota – este inferno é o que saiu da cabeçada de Luiz Alberto para o ângulo direito do goleiro Fábio Costa. O mesmo Fábio que é recentemente marcado por grandes gols de cobertura a favor do Tricolor – ano retrasado, uma cabeçada certeira de Romário destroçou o então arqueiro de Parque São Jorge.

Ontem foi dia de orarmos com o terço do futebol. Graças aos credos, foi que expulsamos o fel da derrota para o inferno. Nosso destino é a glória, a conquista suprema, absoluta. Não deveríamos ter sido eliminados pelo Vasco e fomos. Não jogamos o suficiente para a vitória contra o alvinegro paulista, é certo. Contudo, foi nosso merecimento. Ou alguém acredita que, em sã consciência, a certeira cabeçada contra que nos garantiu o triunfo foi mera obra do destino?

Ledo engano.

Estava escrito, mais do que escrito, há muitos outonos gelados, desde antes do nascimento de Nelson. Desde antes do nascimento da nossa própria camisa, a cinza.

E foi em um Maracanã frio, gelado, de outono e penumbra que nós, Tricolores, começamos nossa nova caminhada, outros passos curtos para novas conquistas, pois.






O futebol é coisa séria

O futebol no Brasil é uma coisa muito séria.
Não estou falando do futebol do Brasil, do futebol praticado pela seleção brasileira, apesar de estar esperançoso e otimista com o escrete de craques confirmados pelo nosso controvertido treinador e seu fiel escudeiro tantas vezes vencedor. Tão pouco estou falando do futebol dos campeonatos disputados pelos nossos clubes de coração, das grandes agremiações espalhadas pelas diversas divisões de futebol do nosso país, que já não os acho tão sérios assim, visto os lamentáveis episódios ocorridos no brasileirão de 2005, e a situação atual que se encontram alguns dos principais e tradicionais clubes destas terras de cá.

Quando o digo sério, também não falo do futebol esporte, onde resultados inesperados são esperados, são passíveis de imensa e crédula torcida, pois muitas das vezes são concretizados. E isso só ocorre com este esporte, visto que não temos por aí loterias esportivas de outras modalidades, pois os resultados são previsíveis, até os imprevisíveis, veja só, quando temos partidas de basquete ou de vôlei entre equipes que se equivalem tecnicamente, onde pode vencer tanto este como aquele clube, é isto o que realmente acaba acontecendo, ora vence um, ora vence o outro, no futebol não, você pode ter dois times em igualdades de condições dentro e fora de campo, e ocorrer de apenas um sempre vencer, é aí que começam a nascer as ditas Escritas do Futebol, como se fosse algo já traçado nos destinos destes dois personagens, e que ajuda a envolver ainda mais de misticismo este jogo tão surpreendente.

E quem já não soube de um grupo muito mais fraco, sem nome, sem tradição, até literalmente sem camisa, arrancar das pernas dos seus jogadores e dos corações que vão parar nas pontas das chuteiras um resultado surpreendente, tudo bem que às vezes contam com ajuda dos chamados Deuses do Futebol, mas isso também faz parte da magia que o envolve. Ainda assim, não é este que quero mencionar.

A seriedade que me refiro vem do futebol que é praticado até por quem não tem afinidade ou não tem intimidade com a pelota, que é praticado apenas pela necessidade de inserção do indivíduo em sua comunidade. Falo do futebol que aparece como uma das primeiras formas de manifestação de valores morais dos meninos, onde aparece a organização voluntária em prol de um objetivo, onde aparece o líder que organiza a aparente bagunça com um simples par ou ímpar, onde aparecem os justiceiros, os defensores, os democratas, e os que possivelmente apresentarão problemas de desvio de conduta. Tudo isto pode ser observado neste futebol que classifico como sério. Tão sério, que se, durante a partida, no momento que aflorar este desvio de comportamento, o menino for orientado corretamente por um pai, um educador ou um ente querido qualquer que esteja preocupado com a formação desta criança, “esta alma poderá ser salva”, e deixaríamos certamente de ter tantos escândalos políticos, econômicos e sociais nos noticiários do nosso país.

Falo também do futebol agregador, do futebol que reúne as pessoas, do futebol que desliga os programas medíocres das televisões, que desconecta as salas de bate-papo da Internet, que os meninos maiores organizam pela simples necessidade de se encontrarem uns com os outros, do futebol sagrado, daquele que a esposa permite, que já está marcado como território conquistado, daquele que a agenda é completada em sua função, que não se marcam reuniões nem festas naqueles dias, pois é o dia da pelada semanal, é o dia de falar besteira, de falar coisa séria, tudo com muita cerveja gelada, de fazer um churrasco e um pagode depois do futebol, que pode ser durante ou antes também, do futebol que às vezes pode até nem ter futebol, esse sim, meus amigos, é coisa muito séria.

Nelson Carlos Câmara Borges 22/05/06

O novo Rei Zulu


“Mar-cão! Seleção! Mar-cão! Seleção!”

Com este carinhoso grito de guerra, desde 1.999, a grande torcida tricolor presente aos jogos reverencia o jogador Marcão, no momento em que a escalação da equipe das Laranjeiras é anunciada nos alto-falantes dos Estádios em que se apresenta.

Marcão realmente lembra os grandes cabeças-de-área do passado, o xerife do time, aquele que protege os zagueiros, rouba as bolas do adversário, funga no cangote, chega a todas as bolas divididas, comete faltas providenciais, questiona os juízes, encara os jogadores mais assanhados do time oposto, mostrando o “cartão de visitas” logo no início das partidas, corre o jogo todo, vai ao ataque no desespero, joga improvisado se preciso for, até no gol se não tiver goleiro. Bate córner e corre pra cabecear!

Chegou ao tricolor de mansinho, vindo do Bangu e com sua dedicação, raça e muita disposição, além do grande nível de profissionalismo, foi conquistando no clube e principalmente no coração da torcida, o espaço deixado pelo antigo Rei Zulu, o Denílson, nosso cabeça-de-área, também por muitos anos, nas décadas de 60 e início de 70.

Nunca foi protagonista de jogadas mirabolantes, de dribles maravilhosos, mas com suas constantes demonstrações de pura raça, nos momentos de aflição, quando às vezes a situação parece perdida para o tricolor, levanta e leva a galera ao delírio, roubando bolas ou chutando pra onde der. Joga para o time, em qualquer circunstância, faça chuva ou sol; nunca está envolvido em polêmicas fora de campo e outros bochichos, em situações políticas; joga com quem chegar ao clube, é amigo de todos. Enfim, Marcão é unanimidade nas Laranjeiras! Quem já tentou barrar o cara, sentiu a ira da torcida! É o eleito representante da mística e do orgulho encarnados na camisa tricolor!

Com mais de 350 partidas pelo Tricolor das Laranjeiras, é hoje talvez, o jogador de maior longevidade em um clube brasileiro, o que o aproxima ainda mais dos jogadores de décadas passadas. Do tempo em que sabíamos escalar qualquer dos times antes mesmo do Campeonato se iniciar. No Fluminense é Marcão e mais dez!

Muitas vezes não tem o devido reconhecimento da imprensa, pois mesmo quando é o melhor em campo, não passa de nota oito, mas dificilmente ganha menos de seis. Pra torcida, Marcão é sempre nota dez!

Não é o que se pode chamar de artilheiro. Faz poucos gols; porém, vem se notabilizando pela marcação de alguns, de grande importância como o da virada em cima do Volta Redonda na final do Carioca de 2005, quando o Fluminense sagrou-se Campeão Estadual. Marcou também o primeiro contra o Americano na final de 2002, abrindo caminho para a conquista do título daquele ano.

No último clássico contra o Botafogo, marcou um dos mais belos gols que presenciei no Maracanã. Digno dos grandes craques, daqueles gols que valeriam a nota máxima nas avaliações dos noticiários esportivos, se assinalados por Romários e Zicos nos bons tempos. Digno de placa! Bola alçada na área que sobra após disputa pelo alto, no limite da área pequena. A defesa adversária, estática, assiste estupefata, atônita, como que torcendo e esperando a bola entrar, consolidando a jogada de grande beleza plástica. O salto, a pedalada no ar e nosso herói de ébano acerta um chute certeiro e forte que estufa as redes alvinegras e enlouquece a torcida. Golaço! Inapelável! Lindo! Na mesma hora disparei: O ingresso já está pago! Golaço! Bicicleta! Tal como ensinou há tempos atrás o grande Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”.

Craques de nome passaram pelo clube nos últimos anos. Momentos de euforia, de tensão, de grande tristeza, crises, também passaram. Gerações inteiras de jovens jogadores apareceram e alguns já se foram. Outras promessas surgiram e também passaram. Enfim, tudo passa, mas Marcão resiste a tudo e a todos e continua. Herói absoluto e detentor das graças da galera! O novo Rei Zulu!

Mar-cão! Seleção!
Jocemar de Souza Barros

Salve o América!

Trinta e oito do segundo tempo, um a zero América, que levava o jogo sem maiores problemas para uma vitória bonita e justa.

A torcida cantava: “Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe sangue! Seremos campeões!”

De repente, o juiz marca um pênalti duvidoso, ou pelo menos rigoroso (coisas que acontecem e sempre aconteceram ao longo da vida do América). Quarenta minutos e o adversário empata.

Sufoco! A torcida se entreolha.

Morreremos na praia novamente?

O que estarão tramando os deuses do futebol agora?

Jogo terminado, um a um, começa a dolorosa e interminável disputa de pênaltis.

Por instantes parece que a baliza escolhida para as cobranças é a do lado oposto à torcida rubra. Engano. Parece que os deuses deram uma mãozinha.

A torcida não parece desanimada e acredita, incentiva e seca, grita o tempo todo!

Como não poderia deixar de ser, a disputa é nervosíssima e segue empatada até o final da série. Na última cobrança o adversário erra. Bola na trave!

Na euforia, cheguei mesmo a gritar: É Campeão!

Estava sacramentada a vitória do Mequinha, do Mecão, do América! Saaannngueee!

Os deuses e provavelmente mais um monte de americanos, presentes e ausentes, vivos e mortos, soprando a redonda para fora do gol, ajudaram e desviaram o último chute, que caprichosamente beijou a parte interior da trave e correndo perigosamente entre o goleiro e a linha do gol, decretava a vitória (e haja Isordil).

Como diria o grande cronista tricolor Nelson Rodrigues: “Estava escrito há três milhões de anos” América na final da Taça Guanabara após vinte e três anos de espera.

Taça Guanabara! Ah! Guanabara! Que saudades da Guanabara!

Saudades da Guanabara! Da baía de águas claras... Como diria o poeta na música feita em louvor ao antigo estado.

Que saudade do velho Campeonato Carioca!

Do América de Edu, Alex, Badeco, (quem não lembra?), ou do time: Rogério, Orlando, Alex , Geraldo e Álvaro, Ivo, Bráulio e Edu, Flecha, Luizinho e Gilson Nunes; do Bangu de Aladim e Paulo Borges; do Madureira; do São Cristóvão; do Campo Grande, etc, etc... e sem os Caixas D’Água, sem os empresários gulosos, sem os cartolas inescrupulosos.

Quem não se lembra das rodadas duplas entre grandes e pequenos, da geral, dos troca-trocas?

Torcida vibrando como há muito tempo não vibrava, nem lembrava.

Que emoção! Dia típico da Guanabara. Noite quente e céu estrelado! Lindo!

Maracanã de gramado impecável, majestoso tapete verde para coroar o espetáculo!

Foi de arrepiar qualquer ser humano com um pingo de sensibilidade e principalmente sendo amante do futebol, particularmente do futebol carioca.

Fiquei emocionado e porque não dizer, com inveja do torcedor americano (sou tricolor). Não por vencer uma partida ou chegar a uma final de torneio, mas por manter tão viva e forte essa paixão, esse amor por seu clube, por um clube afastado da mídia, tão combalido, muitas vezes alvo de piadas, de brincadeiras, por um clube que pouco jogou ou sobreviveu nas competições de que participou nos últimos vinte anos, por um clube dura e injustamente castigado e perseguido pelas próprias instituições que deveriam tê-lo ajudado a manter-se vivo, à altura de suas tradições, vitórias, glórias do passado e representatividade indiscutível conquistada dentro do cenário esportivo brasileiro e carioca.

A torcida, por incrível que pareça, ainda se renova. Talvez com menor velocidade e força que em tempos passados, tal o longo período de vitórias escassas.

Que emocionante ouvir o grito que vinha da arquibancada: “Ah! O Maraca é nosso!”

Há quanto tempo essa torcida queria e merecia soltar esse grito!

É, e o Maraca era mesmo do América! Afinal, o Maraca é tanto do América, quanto dos outros, que vivem gritando a cada jogo. Depois sair às ruas em gloriosa caravana de carros a buzinar e sacudir as bandeiras e camisas rubras.

Parar nos bares ao redor do Maraca e bebemorar. Tirar uma onda com os outros torcedores, ultimamente tão acostumados a encarnar no torcedor americano. Saaannngueee!!!

Vi crianças, adolescentes, jovens adultos e logicamente, os idosos, representantes máximos e pilares da legião de americanos, que certamente não cabe em meia dúzia de Kombis, como costumam dizer por aí.

Vença a final ou não, já valeu (mas acho que os deuses vão ajudar).

Fica a certeza de que o América está cada vez mais vivo. (Estou arrepiado escrevendo estas linhas).

Que fique gravada a grande lição de amor e paixão da Torcida do América. Lição de amor e paixão por um clube e pelo futebol!

América vovô! América centenário!
América, primeiro time de muitos e segundo time de todo o resto!
América, que inspirou tantos outros Américas pelo Brasil afora!
América, que é parte importante e confunde-se com a história dessa Cidade Maravilhosa!
América, que traz no hino a introdução do Hino da Cidade (Lalaiá, Lalaiá, Lalaiá, Lalaiá, Lalalaiá, Laiá, Cidade Maravilhosa, Cheia de encantos mil...).

Senti que hoje o Rio acordou mais feliz, a Guanabara mais feliz, o futebol mais feliz com a volta por cima do América!

Torcedores rubros saindo de casa com o peito estufado exibindo a camisa, tanto tempo guardada!

Torcedores de ontem e de hoje, que pouco se manifestavam e que muitas vezes desconhecíamos o verdadeiro clube de coração!

Já ia me esquecendo: O América é grande sim! Sempre foi e sempre será!

Deus abençoe o América!