Wednesday, August 26, 2009

MEMORABÍLIA DE UM FLA-FLU

Quando nasci, já era Tricolor. Não tenho lembrança de simpatizar com nenhum outro time que não fosse o Fluminense. Sempre foi o meu primeiro e eterno amor no futebol.

As imagens que tenho em vaga lembrança da mais tenra infância Tricolor remetem a meu pai me puxando pela mão num jogo de dois zeros – um empate. Gostava das cores das camisas das pessoas, todas iguais. Era o Fluminense em minha retina. Noutra partida, como já contei um dia, meu troféu era o cachorro-quente da Geneal, mas a massa enlouquecida insistia em me jogar para cima o tempo todo. Eu devia ter meus sete anos, seis, e já era testemunha de uma goleada – foi quando atropelamos o Vasco e vencemos a taça de 1975. Até então, não sabia o que era o Flamengo.

Descobri com dez anos.

Houve um Fla-Flu que não valia taça, mas era importante como sempre, pois o Fla-Flu já é por si um troféu. E tomamos uma sonora goleada, acachapante, em anoitecer de grande chuva no Maracanã. Nosso goleiro era Wendel, uma muralha digna da seleção brasileira; mesmo assim, os flamengos fizeram gol após gol e saíram com uma vitória magnânima. Sei que chorei. Lembro de meu pai não falar absolutamente nada durante a volta para Copacabana. Lembro também que ele não quis jantar. Perder o Fla-Flu pode levar um homem a quebrar as rotinas familiares, destratar a mulher amada, não atender o amigo. É um choque. E, tomado por um sentimento infantil que desapareceu por completo, com meu sanduíche de presunto na sala do pequeno apartamento, pensei em vingança. Sim, a vingança daquela derrota vil e insana. Quando seria? Quem seria meu herói? Haveria um herói? Ah, se meus botões se materializassem no gramado do Mário Filho, o time seria um verdadeiro aríete, para derrubar qualquer muralha: Robertinho, Cristóvão, Edinho, Pintinho.

Para um garoto, uma semana leva um ano. Um ano leva um século. O espinho atravessava minha garganta feito uma adaga. Nos rachas do recreio, nas peladas à tarde na vila, nos jogos da praia na Figueiredo, tudo parecia uma grande faixa a zombar do Fluminense: “O Tricolor não é de nada; é somente um humilhado, um goleado”. Passavam os dias, os meses e nada.

Então, subitamente, veio mais um domingo à tarde. Era novamente um Fla-Flu. Tínhamos o pó de arroz em festa nas arquibancadas; do outro lado, os flamengos urravam como nunca: eram os campeões; tinham a festa, a massa e a imprensa a seu lado. Uma gritaria incessante. Por alguns momentos, tive medo quando nos atacaram, e também tinha medo quando algum jogador parecia solto num dos lados de nossa defesa. Em certo momento, meu pai alertou: “Fique tranqüilo, o Rubens está na cobertura”. Era Rubens Galaxe, velho herói de grandes conquistas, que jogou em todas as posições exceto no gol. Rubens deu um chute bonito, e a bola talvez entra entrado no canto direito de Cantarele. Nós gritamos; fizemos um a zero. Os flamengos eram uma arquibancada enorme, dantesca, e fizeram o silêncio; durante muito e muitos anos, sempre percebi que, quando comemoramos um gol, eles ficam mais calados do que contra todos os outros adversários. Somos os irmãos Karamazov.

Pouco tempo depois, houve uma bola alçada da direita; Pintinho, nosso craque, subiu e tocou de cabeça, no alto à direita do goleiro. Era dois a zero. Lembro de meu pai rir. O Maracanã era um silêncio sepulcral à direita da tribuna de honra. E terminou o primeiro tempo. Era minha estréia em entender a importância do Fla-Flu. Vencíamos e bem. Faltava alguma coisa, no entanto. Não sei se a goleada, uma grande jogada ou algo que namorasse a minha memória para sempre.

Talvez o Fluminense tenha assentado o jogo no segundo tempo. O que me vem à tona é que houve um pênalti. Eles urravam novamente, como se estivessem feridos de morte e ressuscitassem. Era uma explosão. Quem pegou a bola nos braços, senhor de si, era Zico, o jogador que tinha todos os jornais a lhe saudar, conforme eu já acompanhava levemente nos cadernos esportivos. E gritavam: “Zi-co! Zi-co!”. Temi pelo pior. E o que faltava para a eternidade de minha memória finalmente nasceu. O chute foi forte, no canto esquerdo. Não tínhamos mais Wendel, nem Renato. O goleiro era o jovem Paulo Goulart, que voou e defendeu a bola, mandando para escanteio. Pela primeira vez, vi a torcida do Fluminense gritar como se fosse um gol nosso, sem ter havido gol algum. Bateram o escanteio, a defesa rechaçou e tudo estava a sorrir por conta daquela defesa. Meu coração de criança apontava que merecíamos golear, mas estava somente dois a zero.

Quando faltava pouco tempo para o fim do jogo, nossa torcida cantava que já estava na hora de ir embora. Chegou a cereja do bolo: o menino Cristóvão, não tão menino quanto eu, mas muito menino para encantar um Maracanã lotado, acertou um drible fantástico no zagueiro Manguito, que caiu estatelado, e fuzilou o gol flamengo, fazendo três a zero. Milhares e milhares de flamengos vazavam pelos então pequeninos corredores de acesso das arquibancadas do Maracanã. Foi uma grande noite. Foi a primeira noite em que, com meus dez anos, eu me considerava um grande vencedor no futebol. A partir de então, veio um jogo e mais um jogo, e mais outro jogo. Centenas de jogos. Risos, lágrimas, dor, paixão.

Para muitos, hoje é um Fla-Flu apenas esvaziado, debilitado pela má fase das duas equipes. Um Fla-Flu precário. Para mim é diferente: O meu Fla-Flu, na verdade, começou há quase trinta anos atrás. E nunca mais acabou. É o jogo que nunca termina e jamais terminará. Hoje, sim, é um capitulo: mais um de uma história condenada à eternidade.

Torço por um Paulo Goulart em campo. Um Rubens, um Pintinho. Quem sabe, um Cristóvão. Assim como sorri com Benedito de Assis e Renato Portaluppi.


Paulo-Roberto Andel, 26/08/2009

1 comment:

Lauci said...

Muito bem "Uber" Tricolor!!! Apoiadíssimo. Que venham os reforços!!

Beijos tricolores